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Opinião

O RESGATE

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Lembro-me bem dos contundentes relatos da infância de meu pai. Ele não economizava adjetivos para descrever sua miséria, além da violência doméstica do qual foi vítima pelas mãos de seu genitor. Aquilo assustava e ao mesmo tempo ensinava que a refeição era o momento mais especial do dia. Ter o que comer já era o suficiente para sempre agradecer. E ter tido um pai carinhoso que nunca usou de nenhum expediente violento para nos educar também. Cresci em um ambiente cercado de riquezas afetivas e ensinamentos, embora sôfrego de abundância material. Escola pública, coca-cola uma vez por mês e aos domingos, geralmente o último, poucas visitas fora de casa ou para qualquer lugar que não fosse um passeio simples e só. Ou tudo isso. A minha revolução pessoal viria com a educação e com a dedicação incessante aos livros e aos êxitos em concursos para bolsas de estudo em escolas particulares e o sonho de ser diplomata acalentado pela volúpia de ler Shakespeare em sua língua nativa. Nunca desencorajado pelo meu pai. Um insano, pois nem ele ou eu sabíamos bem o que era ser um diplomata. Anos bem mais tarde já formado em Direito, mestre e doutor por universidades públicas federais e PhD por uma universidade pública internacional eis que consigo fazer parte da elite que de certa forma toma coca-cola diariamente, frequenta bons restaurantes e tem os filhos estudando com os daqueles que nasceram ?bem-nascidos?. Não foi o meu caso. Eis que me deparo com a declaração de uma eleitora tucana, a senhora Ione Zukauskas, que disse que necessita mudar, caso contrário os pobres vão mandar no mundo. Faço uma viagem de volta, sinto-me pequeno à mesa com meu pai e irmãos e os relatos da fome, da violência e do medo me voltam como um trovão em tempestade. Reflito e me restauro, busco nas fontes dos livros que me ergueram explicações para tamanha ignorância e não consigo explicações fora da sociologia de classes tão massificada e combatida por uma elite que ainda cultiva o vil metal como centro de sua ganância e poder. Revigoro meu compromisso de resgatar a dignidade daqueles que ainda de alguma forma são privados da abundância material por lhes faltar compreensão, oportunidade e melhores chances. Enxugo a triste lágrima que cai e agradeço por ainda acreditar que sonhos não envelhecem.

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