Opinião
O PAPEL DAS CISTERNAS NA AGRICULTURA FAMILIAR
A cisterna se transformou em um símbolo do Semiárido brasileiro, um símbolo positivo, que significa estruturação, adaptação a uma realidade a qual, se possui as suas mazelas, ao mesmo tempo exibe muitas riquezas e potencialidades. Trata-se de uma tecnologia social, nascida de uma ideia muito simples: se a chuva cai somente em alguns meses de forma concentrada, por que não guardá-la para usar quando ela não vem? A beleza da tecnologia social é ser acessível a qualquer pessoa ou organização que queira utilizá-la, e não ter que pagar nada para ninguém. Feita de placas de cimento, é muito resistente e facílima de construir, podendo ser construída por qualquer pessoa apenas com orientações básicas. Hoje, se transformou em política pública, graças à luta da sociedade civil organizada, principalmente através das organizações da Articulação Semiárido Brasileiro (ASA). Graças à atuação da ASA, buscando convencer o poder público da importância de garantir um meio de prover água de consumo humano a quem não tem, a cisterna ganhou envergadura, povoando as pequenas propriedades do Semiárido brasileiro aos milhares (pouco mais de 500 mil construídas até 2013, somente pela ASA), e se transformou em lei. Em outras palavras, o governo passou a ter a obrigação de investir na construção de cisternas para a população. A beleza maior da cisterna não é apenas ter um meio de guardar água da chuva. O significado maior dela é o protagonismo que ela proporciona aos agricultores, uma vez que seu processo de implementação é participativo desde o primeiro instante. Da mobilização e construção, passando pelas capacitações, que valoriza e fortalece o saber das comunidades, a cisterna é um verdadeiro instrumento de fortalecimento da agricultura familiar. O alicerce, que garante a necessidade mais básica de todo ser humano, a água para matar a sede. A conjuntura atual é positiva. A cisterna, desde 2013, é lei. É política pública, prevista no orçamento da União. A Organização das Nações Unidas (ONU) elegeu 2014 como o Ano Internacional da Agricultura Familiar, o primeiro ano internacional da ONU promovido pela sociedade civil. A cisterna é um instrumento de libertação. Que ela seja também um alicerce, um ponto de partida para que cada família possa construir uma vida mais digna, e viver bem na terra onde reside.