Opinião
A TRAVESSIA DE CARLOS M�RO
Carlos Méro é uma daquelas figuras, , em que a aguçada inteligência e a sólida cultura convivem harmoniosamente com a fidalguia e com a simplicidade, compondo a personalidade de um ser humano verdadeiramente admirável. Homem discreto e comedido no agir (quase tímido, eu diria), prudente no falar e ágil no pensar, vive intensamente os seus sonhos e os seus desejos, traçando na contemporaneidade o perfil de uma presença marcante. Menino nascido e criado na bela Penedo, correndo solto pelos becos enladeirados e fascinando-se com o casario secular, certamente foi ali, entre os encantos das lendas do rio São Francisco e a fé avoenga transmitida pelo velho Ernani, que Carlos Méro foi moldando a sua capacidade extraordinária de contar histórias, e de contá-las de um modo todo seu, único, particular, inconfundível. Depois vieram as suas leituras disciplinadas e constantes, os seus périplos pela França que hoje lhe é tão familiar, a sua curiosidade intelectual sempre renovada, a sua farta produção que abrange o conto, a poesia e o teatro ? e eis que fomos brindados com um escritor de primeira, capaz de criar personagens e de urdir tramas que nos prendem do início ao fim de cada leitura da sua lavra. Mais uma vez a verve de Carlos Méro aflora, desta feita ombreado a Cristina Duarte-Simões, professora-pesquisadora da Universidade de Toulouse, nos relatos de ?Travessias ? enredos d?áquem e d?além mar?, coletânea de doze contos há pouco vinda a lume. São relatos travessos nos quais a imaginação do leitor é acicatada a cada parágrafo, de modo que nos sentimos envolvidos pelas personagens e seduzidos pelos enredos que, conquanto tenham sido escritos separadamente, guardam entre si uma certa identidade de inquietações e de dúvidas, numa harmonia envolvente. Lê-se as histórias de Carlos Méro e Cristina Duarte-Simões com prazer e interesse, naquela satisfação que somente os livros realmente bons nos podem proporcionar. Os autores tomam-nos pelas mãos, levam-nos consigo aos desvãos da sua criatividade, fazem-nos mergulhar nos mistérios do seu fazer literário; e voltamos da leitura como que revigorados, dispostos a novas e mais surpreendentes descobertas. ?O estilo é homem?, dizia-nos Buffon. No estilo de Carlos Méro, vislumbramos todas as qualidades de homem, de jurista e de literato. Como nos demais quadrantes da sua personalidade, ele não veio a passeio para a literatura brasileira: chegou para fincar bandeira e marcar terreno, fazendo-o com a competência e o carisma que só os grandes logram alcançar.