Opinião
Adultos inocentes
Jandira Magdalena era uma garota normal, trabalhava, tinha sonhos e nunca fez mal a ninguém. Morreu ao tentar fazer um abortamento em uma clínica clandestina. O tema é dos mais inóspitos. Uns suportam que a mulher detém o direito sobre seu corpo e outros acreditam que a inviolabilidade da vida do feto se suplanta a ele. Costumo concordar com os dois, e acho que os indecisos, nesse caso, estão cheios de razão. E se houvesse uma forma mágica de resolver a situação, com todas as partes concordando e satisfeitas? A solução existe, basta evitar a gravidez na adolescência. Estudo da Washington University, recém publicado, mostra que um programa de contracepção bem feito diminui para um quinto a incidência de gravidez na adolescência e para um quarto os abortamentos. É um resultado incrível, não haveria motivos para não implementá-lo imediatamente, mas há um problema. A intervenção só funcionou porque foi pragmática. Não é nenhuma novidade que adolescentes são imaturos e irresponsáveis, de forma que apostar em um programa que exija que eles estejam com uma camisinha sempre a mão, e lembrem-se de utiliza-lá, é receita para o fracasso. Adolescentes também são poços de hormônios em ebulição, apostar em abstinência, é um sintoma de cegueira sobre o tema. O programa funcionou porque oferecia as meninas anticoncepcionais de longa duração. É simples, barato e funciona. Diminuiria drasticamente uma série de problemas, desde os já citados até alguns não tão óbvios, como a criminalidade algumas décadas depois. Mas como disse, tem um problema. No topo das preocupações de nossa sociedade machista não estão o crime, a saúde ou a pobreza, está a castidade. A mera possibilidade, teórica e sem comprovação, de que, supostamente, fornecer métodos contraceptivos possa induzir um aumento do interesse das meninas por sexo (no fundo, ninguém liga para os meninos) é suficientes para muitos preferirem deixar tudo como está, uma epidemia de abortos e um exército de crianças criadas por crianças. Aviso aos leigos e senhores inocentes: a taxa de fertilidade na espécie humana não é 100%. Para cada adolescente grávida, outras milhares aproveitaram a vida sem serem fecundadas. Se você fizer as contas rapidamente, verá que não sobraram muitas para proteger dos ?corruptores? que recomendam oferecer contraceptivos de longo prazo nas escolas.