Opinião
Atualidade dos velhos �dios no velho mundo
No século recém-passado, as duas principais carnificinas globais, apropriadamente chamadas de ?Guerras Mundiais?, se originaram na velha Europa. A primeira, cunhada com o eufemismo da ?guerra para acabar com as guerras?, se estendeu de 1914 a 1918, mudou a face do mundo em seu tempo, e deu origem a uma filha ainda mais terrível, a segunda, que se demorou de 1939 a 1945, e, novamente, mudou o desenho político de boa parte da terra. O que distingue esses dois conflitos sangrentos dos demais é a marca de terem sido globais, envolvendo países de praticamente todos os continentes. Durante cada um desses conflitos, muitos milhões de vidas foram sacrificadas, países sumiram, outros apareceram ? e a Paz sonhada continuou um sonho distante mergulhado num pesadelo de tensões crescentes e de guerras ?menores?(embora sempre envolvendo interesses de países em vários continentes). Mesmo durante a ?Guerra Fria?, o calor dos combates diretos se fez sentir, como no caso das Coreias e do Vietnã, além dos intermináveis enfrentamentos no continente africano ? sem falar, é lógico, no sempre sangrento Oriente Médio. Nos dias em curso, não sem motivo, as tensões explosivas têm como um dos epicentros um dos cenários eivado de velhos confrontos ? a Ucrânia. Essa região eslava se martiriza desde muitos séculos atrás, e nos tempos modernos, algumas das principais contradições de origem tribal se materializam em torno das populações que querem ser europeias e as que assumem sua condição eslava. Esse caldo de cultura milenar é temperado pelos venenos ideológicos ainda ativos e fartamente utilizados ao longo da II Grande Guerra, quando parte dos ucranianos se uniu aos nazistas e se chocou com outra banda alinhada à Moscou, provocando danos uns nos outros, de tamanha envergadura, que geraram feridas impossíveis de serem cicatrizadas mais de meio século depois de findo o conflito. Abafadas pela mão de ferro soviética, essas incompatibilidades hibernaram durante todo esse tempo, em verdade, como se diz no Nordeste, seguiram queimando ?como fogo de monturo?, brasas sob cinzas, que ? num dado momento, eclodem novamente em fartas labaredas. O resto do mundo tem que tomar muito cuidado, ou o fogaréu se espalhará para muito além das fronteiras da sofrida Ucrânia.