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Opinião

ELOGIO DA MAL�CIA

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A malícia é um dos valores mais cobrados desde a primeira infância. E aos do sexo masculino, bem mais. Parece sinônimo de inteligência e avidez. As meninas parecem herdar este atributo mesmo sem lhes ser cobrado. Com os meninos é diferente, à proporção que vão crescendo, o pai, geralmente, induze-lhes esta malícia para com os amigos, as moças e com a vida em geral. Faz parte do seu amadurecimento, do projeto de sua masculinidade. Fará parte da personalidade do futuro adulto, do chefe de família. A argúcia que todo mundo gostaria de ter para enfrentar a vida. Às vezes o indivíduo fica adulto e não adquire este dom, se é que podemos chamar assim. Passa a vida inteira sendo enganado porque não pensa mal de ninguém, não tem o mínimo da desconfiança nata de todo indivíduo. É alvo de piadas e pulhas sem que consiga deduzir com rapidez o significado. É devagar para compreender um sorriso fora de hora, um olhar avesso ou uma cara feia. Não é burrice. Funciona como uma espécie de inocência que se perpetua com o passar do tempo. Conheci um sujeito que era quase um santo. Vivia como se não fosse desse mundo. Mesmo quando era enganado continuava acreditando na boa fé de qualquer um. Não conseguia pensar mal de ninguém. Também não se irritava à toa. Esquecia o acontecido com a mesma facilidade. Não guardava rancor nem murmurava intempéries. E o mais estranho é que mantinha em sua serenidade aquele aspecto de felicidade que muitos não encontravam. Nunca estava mal humorado. Não vivia ressentido com ninguém. No entanto, possuía a essência da indiferença que incomodava seu entorno, porque centralizava em si mesmo os seus objetivos. Sabia o seu caminho. O resto do tempo mantinha uma amabilidade quase sistemática. Por isso, talvez o chamassem de bobo alegre. O bobo alegre passou por todos e se deu bem na vida. A evolução da malícia passa por uma fase chula que se reporta à canalhice. O indivíduo consegue transformar qualquer frase em alguma pornografia. E, sobretudo, se houver uma plateia capaz de rir o chiste tem mais graça. A mente parece viver pronta a produzir cada vez uma provocação. É o próprio deleite do choque que causa e a criatividade que se revela ao bizarro. Alguns ficam famosos pelo anedotário medíocre que engendra, onde o palavrão se amolda de forma magnífica. É o próprio efeito da vulgaridade na fluência verbal. E enfim o orgulho pessoal de um ator diante da plateia. Uma simbiose. Um existe pelo outro. Há quem escute e goste. Há quem seja obrigado a escutar.

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