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LEURENY, A SUSTENT�VEL LEVEZA DOS 70

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No último domingo, um grande espetáculo comemorou os 70 anos de Leureny, nossa mais consagrada diva. A metáfora mais interessante colocada por Zé Marcio no palco do Deodoro, traduz-se na cena de abertura onde uma menina cruza o proscênio trazendo um balão e dirige-se à cantora, no centro do palco e a cumprimenta. Nada mais representativo da personalidade de Leureny. Uma criança brincalhona acostumada a tocar a vida com leveza e doçura. O traço marcante da existência desta mulher que chegou a disputar com Elis Regina um lugar na MPB dos anos 70 é, mesmo, sua eterna juventude. Aos 70 anos Leureny é uma menina travessa a passear descalça pelo palco com a intimidade de quem passeia pelo quintal de casa. Uma artista de verdade. Manteve aquele frescor da renovação. Não permitiu que o tempo lhe extraísse o viço, a fluidez e o desejo de interpretar a mesma canção sempre de um jeito novo. Assim, o tempo emprestou-lhe, apenas, mais serenidade e precisão no trato dos acordes. O estilo interpretativo de seu canto expressa a emoção em doses suaves e contínuas, sem os excessivos malabarismos vocais do tipo que nos empurram no The Voice Brasil. Esta delicadeza está manifestada em seu gestual, contribuindo para uma presença de palco de intensa dramaticidade e agradável elegância. Para quem, como eu, a conheceu nos anos 80 é possível garantir que ela preserva a mesmíssima voz, uma qualidade vocal inalterada pelo tempo. Sua generosidade permitiu que partilhasse o palco com seis cantoras de inequívoco talento e uma banda composta por músicos de categoria internacional, transformando a noite numa grande festa, um épico da MPB em Alagoas. O encerramento guardava uma surpresa para a plateia. É quando Leureny confessa que a última canção é a canção que lhe perseguiu por toda a vida, uma espécie de ícone de sua trajetória. É a que traduz o traços mais marcantes de sua personalidade artística, aqueles que ela carregou consigo por toda a sua caminhada: a rebeldia, o inconformismo, o coração sempre aberto para o sonho. Vapor Barato, um rock rasgado e dificílimo de cantar, de autoria de Jards Macalé e Waly Salomão era um recado aos generais da Ditadura Militar, partido de quem e para quem só sobrara a opção pelo exílio. Assim, ela decupa a canção, transforma sofrimento em melodia e, em dado momento, empreende um delicioso diálogo vocal com a guitarra, conversando com o instrumento no mesmo timbre, numa performance jazz/rock de dar inveja a veteranas do rock?n roll.

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