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Homenagem p�stuma

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ANTONIO SAPUCAIA * Lembro-me dele, ainda estudante e solteiro, residindo com os pais ? Pedro Ciríaco Barros e Anna Cavalcanti de Barros ? na casa de alpendre que continua de pé na Rua Getúlio Vargas, em Pilar. Ali se recolhia, quando começavam as férias no Colégio Guido de Fontgalland, e estreitava contatos silenciosos e reflexivos com Machado de Assis, José de Alencar, Humberto de Campos, Napoleão Mendes de Almeida, Júlio Ribeiro, Antenor Nascentes e tantos outros escritores e gramáticos que lhe deram o gosto pela leitura e lhe confidenciaram os segredos da língua portuguesa. Esse seu recolhimento não o distanciava da prática desportiva, que cultivava no Guido e estendia ao Comercial, em Pilar, juntando-se a Miguel Nobre, Miguel Lins, João Matão, Américo Gonçalves, Zeca do Esperidião e, mais adiante, Gilson Medeiros, Humberto Soares, José Maria Costa, treinando no campo do Nova Cruz. Apesar de arredio, enveredou pelos caminhos sinuosos da política, tornando-se prefeito do Pilar (1952-1956), retornando ao mesmo cargo em 1960, ao qual renunciou em 1962 para ingressar no Ministério Público, como Promotor Público de Olho D?Água das Flores. Algumas vezes nos encontramos, à noite, na estação rodoviária de Palmeira dos Índios, na parada de ônibus para lanche; ele retornando de Olho D?Água das Flores, eu demandando à comarca de Água Branca. No Ministério Público ocupou todas as funções, exceto a de procurador-geral, exercendo todas elas com responsabilidade, honradez e espírito público. Foi professor e diretor do Ginásio Nossa Senhora do Pilar, lecionando português e inglês, onde deixou o sinete da sua inteligência e a marca da sua vocação para o magistério. Era cordial, sem ser popular; arredio, sem ares de casmurro. Magro e de andar elegante, a muitos dava a impressão de carregar o rei na barriga, mas quem dele se aproximasse, eliminaria o falso juízo. Em um dos nossos encontros casuais, confessara-me que estava querendo reunir em livro os pareceres que produzira na condição de procurador de Justiça, acrescentando que gostaria que eu o prefaciasse. Depois de dizer-lhe da minha pouquidade para a tarefa, terminei aceitando a incumbência, mesmo sabendo-a difícil, embora honrosa. Traçamos planos, prometi ajudá-lo na seleção dos pareceres e até sugeri nomes de editoras com vistas à publicação. Decidimos que faria o lançamento em Pilar, e ele aduziu que tudo seria às suas expensas. Enfim, acordamos que nos encontraríamos no dia seguinte, no Fórum, para os detalhes finais. Na hora convencionada, apareceu simplesmente para dizer que havia desistido da idéia. Não houve argumento que afrouxasse sua decisão. Assassinava naquele instante, um sonho que, se concretizado, seria bastante útil aos que fazem o Ministério Público. Era a exteriorização de uma das facetas do seu temperamento, que respeitei. Fui ao seu velório, na Câmara de Vereadores de Pilar, e o vi magro e pálido, coberto de flores, envolto em um silêncio que parecia clamar por um daqueles seus discursos, bem concatenados e sonorosos. Mas, saí dali com a certeza de que o imaginário discurso seria proferido por Deus, ao recepcioná-lo, no instante em que adentrasse o território invisível do Além. Descanse em paz, Enoch Cavalcanti de Barros, e acolha esta singela homenagem póstuma.

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