Opinião
Uma data que n�o pode ser resumida a s� um dia
Há 35 anos o município de União dos Palmares foi surpreendido com a ?invasão? de um número aparentemente incrível de pessoas. Não eram turistas comuns, eram ativistas do que viria a ser conhecido como Movimento Negro. Era o ano de 1979 e, sem hospedarias, nem restaurantes suficientes, a cidade vendo aquelas pessoas todas se abrigando em barracas de lona, ou simplesmente se arrumando dos bancos das praças e onde mais fosse possível um pouso. No raiar do dia seguinte, todos estavam perguntando onde era a Serra da Barriga e, uma vez apontado o caminho, dirigiram-se para lá como formigas em correição. Nos anos seguintes o fluxo de visitantes a cada dia 20 de novembro só fez aumentar e não faltaram choques (de menor monta) entre os ?invasores? e as autoridades municipais, preocupadas com a regular explosão populacional que inchava a cidade naquela mesma data, todo ano. Consolidava-se a peregrinação ao sítio histórico da capital do Quilombo dos Palmares, nos idos do Século 17, o principal mocambo da sociedade palmarina, local que os documentos antigos identificavam como Cerca Real dos Macacos. Com a redemocratização, a partir de 1985, mais precisamente desde a criação do Ministério da Cultura, naquele mesmo ano, e particularmente após o surgimento da Fundação Cultural Palmares, em 1988, passou a ser tratado como prioridades como o Dia Nacional da Consciência Negra. Enfim, hoje temos um ponto no estado de Alagoas que, pelo menos a cada dia 20 de novembro, é olhado como o centro de comemorações de uma data nacional relevante. O Brasil, neste dia, foca o heroísmo dos quilombolas que tornaram-se senhores de suas próprias vidas durante praticamente um século, vencendo durante todo aquele tempo o poder de uma sociedade escravocrata. É algo notável, sem paralelo na cruenta história da escravidão humana, pelo menos em sua versão tardia, eclodida no pós- feudalismo no mundo. Infelizmente, parece que apenas Alagoas não se dá conta da grandeza desse seu patrimônio. A fantástica história do Quilombo dos Palmares que, através de sua capital encimada no Outeiro do Barriga, brilhou durante pelo menos 95 anos, ainda é pouco conhecida e pobremente divulgada. Infelizmente, apenas no dia 20 de novembro algo é feito para marcar essa epopeia. Antes e depois desta data de hoje, impera o silêncio e o esquecimento. Isso precisa mudar.