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Opinião

ELOGIO DA MAL�CIA 2

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Há maliciosos compulsivos cujo pensamento vaga, como alma penada, a procura de uma motivação fúfia. Depois, digerem prazerosamente a idéia, para regurgitá-la mais tarde já apodrecida e fétida. Mesmo assim, sofrem, muitas vezes, quando são preteridos pelos amigos cansados da embófia, e se tornam solitários. Pelo menos por algum tempo se mantêm reclusos. Tornam-se formais. Mas não se dão por vencidos de forma fácil e com a mesma celeridade colhem alguma frase no ar e jogam a nova platéia esperando a ovação. Muitas vezes é patético observar as suas ações sem efeito e as tentativas de associar-se a estranhos. Quando perdem o repertório costumam abrir a mala do carro para exibir em alto som sua coleção de músicas chulas para a rua inteira ouvir. Uma espécie de vingança que se cosuma com a irresistível coreografia que o ritmo lhe impõe. E burlescamente se movimenta ignorando o olhar da plateia. O prazer do ridículo se torna a arma mortal da mediocridade para um mundo que responde a este apelo. A malícia é o principal instrumento das relações políticas. Elas nascem dos interesses comuns às partes, cada um procurando ter mais vantagem que o outro. O político, não precisa ser o que diz, mas parecer ser. E disso Maquiavel entendia muito bem quando escreveu seu livro ?O príncipe?, razão pela qual chegou a dizer: ?Não é necessário que um príncipe tenha de fato todas as qualidades acima numeradas, mas é necessário que as aparente todas.? A falta desta malícia impede as ações, muitas vezes necessárias, para o bom termo de um acontecimento. Conta Renato Costa, no seu livro ?Ensaios da História?, publicado em 1930, pela Editora Globo, que: ?Tivesse D. Pedro II, vindo imediatamente de Petrópolis e se mostrasse nas ruas, dentro daquela irradiante simpatia e imperturbável serenidade, que tanto o distinguiam das maluquices dos seus antepassados, e é bem provável que ?o acidente militar?, de 89, não tivesse passado de meia dúzia de prisões, até que o idealismo republicano avolumado, forçasse de novo, as portas avelhantadas da monarquia?. No caso de Pedro II, o imperador nunca fez questão de saber que os republicanos lotavam os quartéis e, certamente, nunca duvidou de sua boa relação com Deodoro. Faltou malícia no velho para perceber o carisma que tinha, por isso não jogou duro com os adversários quando podia. Finalmente, o seu caráter impediu que mais tarde, já no exílio, condenasse a república. Mas o sentido da palavra é tão amplo que não podemos negar que, nas mais sinceras das relações sociais, não se escondam, uma boa dose de malícia. Mesmo porque a própria compreensão dos fatos sociais exige certa malícia na sua percepção.

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