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Liberalidade armada, um tiro na cidadania?

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Nos últimos meses tem crescido a pressão pela revogação do Estatuto do Desarmamento. Em vigor desde 2003, essa legislação dificulta a compra e venda, posse e porte de armas no Brasil. Com o inegável aumento da criminalidade tem aumentado também a ilusão de que, uma vez armado, o próprio cidadão teria melhores condições de enfrentar a violência e o crime organizado. Tal suposição, reforçada pelo crescimento galopante da ousadia dos criminosos, também se ampara numa visão ? um tanto quanto distorcida ? da realidade vigente sobre essa questão nos Estados Unidos. Os americanos, há muitos anos, debatem a necessidade de uma nova legislação que restrinja o direito de comercialização, posse e porte de armas. Mas uma antiga tradição mantêm em voga algumas das concepções do Velho Oeste, apesar das recorrentes tragédias nas quais pessoas fortemente armadas levam a cabo massacres enlouquecidos. No Brasil, os defensores do modelo armado americano se esquecem (convenientemente) dos rigores legais dos Estados Unidos na cobrança do uso das armas vendidas livremente na maioria das unidades federadas. A pena de morte, por exemplo, paira ao lado da liberalidade para com o ?direito de cada cidadão possuir sua arma?. No geral quem defende a arma como a ampliação pessoal da segurança, se esquece ser a própria arma um objeto do desejo, e motivador, das ações de bandidos profissionais que não se intimidam nem mesmo a assaltar policiais, muitas vezes tirando a vida do portador para levar o armamento. Sem treinamento adequado e sem preparação psicológica o usuário da arma é um forte candidato a uma tragédia, quer seja por acidente, quer seja num incidente qualquer (como numa discussão no trânsito, por exemplo). O combate ao banditismo só pode ser travado com chances de sucesso por quem tem preparação para isto. E deve-se ter em consideração que quem quer praticar um crime se prepara para tal, inclusive cuidando de surpreender a vítima de forma a impedir sua autodefesa. Se a legislação sobre armas no Brasil têm imperfeições, estas podem ser debatidas e modificadas, por que não? Mas simplesmente revogar o Estatuto do Desarmamento é um tiro na cidadania. Uma vez eliminados os obstáculos, podermos vivenciar uma ?corrida à arma?, possibilitando a circulação de muito mais armamentos em todo País, movimento este que, em potencial, é um chamariz para novas ações do crime organizado.

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