Opinião
Sonhos de um padre
Dando uma olhada em arquivos antigos, encontrei um com o título ?sonhos de um padre?. Feito ainda como seminarista, recordo-me que pus ali desejos pessoais que gostaria de realizar depois que fosse sacerdote. Pensava na paróquia que iria assumir, nas pessoas que iria atender, e por conta disso, tentava verbalizar textualmente para ver se o futuro iria condizer com as ideias que estavam sendo geradas naquele tempo de formação tão intenso. Hoje, quase com dois anos de ordenação, os sonhos ainda continuam. Diante da realidade que me é apresentada, parece que meu coração ainda se enche de esperança em ver tantas situações serem mudadas, um novo acontecer. Tenho sonho de ver jovens com vidas transformadas. Quando vejo algum depositando suas forças nas drogas, encho-me de compaixão. Gostaria de gritar aos ouvidos da juventude que a sede por um sentido de completude, o vazio existencial, pode ser preenchido. Não é uma energia, ou um sentimento passageiro capaz de fazer com o coração se complete. É uma pessoa, é o próprio Deus, dando a felicidade que vejo meus irmãos mais novos buscarem nas festas e nos relacionamentos superficiais. Como eu gostaria de poder dizer a cada jovem que um dia eu fui experimentando por um amor imenso, impossível de mensurar, e por conta disso, só poderia retribuir também com um amor sem medidas. Gostaria de dizer às famílias o quanto elas são importantes para a construção de uma sociedade mais justa, igualitária e baseada em valores verdadeiros. Sonho com famílias como aquela de Nazaré, onde na pequenez da labuta diária, era voltada para a realidade do Alto. Queria proclamar às famílias o quanto a oração do terço rezada em conjunto livra-as do mal e protege o que há de mais sagrado nelas: a paz. Ainda tenho muitos sonhos, muitos desejos que consomem o meu sacerdócio. Pena que as letras não se tornem amigas quando o quesito é espaço, oportunidade, expressão total. Mas, confesso que tantos sonhos são alimentados por que ainda tenho esperança. E como não ter? Visto que estamos tão próximos do Natal e o nascimento de Cristo enche-nos da virtude da esperança que muito ainda pode ser mudado. Não sou louco, cheio de ideologias, alheio à realidade. Sou apenas um padre que continua a sonhar.