Opinião
FALTOU PEDIR DESCULPAS
Passado um mês da eleição, é tempo de seguir adiante, mas não sem antes pedir as devidas desculpas. Os grandes institutos de pesquisas do país foram apedrejados em 2014. No fim, acertaram, recebendo como prêmio, apenas o silêncio. Um erro de 10 pontos no resultado do primeiro turno levou ao surgimento de teorias conspiratórias. Esse processo resultou, em última instância, na recente apresentação no Congresso de uma lei que proíbe a divulgação de pesquisas eleitorais. Falta intimidade à população com a ciência da estatística. Mais precisamente, falta entendimento de suas limitações. Nem o Jornal Nacional entende direito as pesquisas eleitorais. ?O intervalo de confiança de 95% significa que, se realizados 100 levantamentos, em 95 deles o resultado refletirá a realidade, considerando a margem de erro?, falou a apresentadora. Nada mais falso. É preciso entender que a estatística tem o poder de evitar apenas o erro aleatório, aquele que se dá quando entrevistamos um número muito pequeno de pessoas. É obvio que se perguntarmos a apenas 4 pessoas e 3 preferirem o candidato X, isso não significa nada. O que a estatística faz é tão somente calcular quantas pessoas são necessárias para se evitar que o puro azar invalide o resultado. O que faz o estudo acertar o resultado da eleição não são os tão falados nível de confiança e margem de erro, é a metodologia utilizada. E ai é que o bicho pega. Para representar o Brasil, país extremamente heterogêneo, é preciso escolher um grupo de eleitores entre executivos sobrevoando a avenida paulista de helicóptero e gente morando em palafitas no meio da selva amazônica. Para piorar, pequenos eventos aleatórios podem bagunçar tudo, independente da robustez dos cálculos. O eleitor mudando de ideia, entre o dia da pesquisa e o dia da eleição, foi a causa do problema na primeira etapa da corrida presidencial. Houve em 2014 uma profusão de pesquisas falsas. Proibir as verdadeiras, em tempos de redes sociais, só tornaria as fajutas mais fortes. Nenhuma pesquisa é perfeita, se fosse, nem precisaria haver eleição, mas proibi-las é trocar o duvidoso pelo mentiroso. IBOPE e Datafolha acertam, ano após ano, a grande maioria dos resultados. Não é pouco. Existe como melhorar ainda mais? Bem, existe uma coisa chamada inferência bayseana, mas meu espaço acabou.