Opinião
LIVRAI-NOS DOS CHATOS
É de Stanislau Ponte Preta a melhor definição que eu já ouvi: ?Chato é o sujeito que nos rouba a solidão sem nos fazer companhia?. Aquela figura que sempre se achega a nós nos momentos mais inoportunos, furtando-nos os preciosos momentos em que conseguimos estar a sós conosco mesmos, ouvindo a voz da nossa própria consciência, escutando as batidas do nosso próprio coração. O chato parecer ter um prazer mórbido em nos atrapalhar, em nos incomodar, como se, saturado ele mesmo da sua presença insuportável, resolvesse vingar-se do mundo impondo aos outros as suas conversas sem nexo e sem importância. Percebe-se de longe a aproximação de um chato, que chega até nós se esgueirando pelos cantos, alma penada pronta para nos atormentar com a sua falta de assunto que nos interesse. Mal piscamos e o infeliz já está ali, bem pertinho de nós, pronto para nos atormentar, como se a sua missão no mundo fosse apenas essa, a de perturbar impiedosamente a quem, mercê de um cochilo do anjo da guarda, tem a desventura de estar no seu caminho. E há até mesmo aqueles que nos apertam o braço como se quisessem impedir-nos de correr, e os que cospem enquanto falam quase grudados ao nosso rosto. Qualquer que seja a espécie, o chato é sempre algo que pode pôr a perder um momento especial, verdadeiro despacho de macumba que inferniza a sua malfadada vítima sem dó nem piedade. O chato vê um casal numa mesa e se senta entre eles sem nem pedir licença; põe-se no meio de pai e filho que estão fazendo uma refeição juntos; puxa papo com o vizinho em plena sessão de cinema. Já me deparei com um chato que, vendo-me imerso na leitura de um livro de Drummond, tomou-o das minhas mãos dizendo: ?Deixe pra ler noutra hora; agora vamos conversar um pouquinho?. Mas quem lhe disse que eu queria conversar, ora bolas? Quem lhe convenceu da insanidade de que eu preferiria ouvir seus devaneios a mergulhar nos poemas do meu autor predileto? Geralmente o chato acha que sabe de tudo, da física quântica às ciências ocultas. Nada lhe é desconhecido, e ele é capaz de discorrer sobre qualquer coisa como se fosse a maior autoridade naquele assunto. E fala sem parar, para não nos dar a chance de, entre uma palavra e outra, berrarmos enlouquecidos: Chega, eu já não aguento mais! Se existisse no mercado um repelente preventivo contra os chatos, eu o compraria sem nem perguntar o preço. Enquanto tal produto ainda não está à venda, resta-nos rogar aos céus, confiantemente: livrai-nos dos chatos, minha Nossa Senhora, pelo amor de Deus.