Opinião
Ainda sobre o gesto grandioso de Obama
No início do ocaso de seu duplo mandato, o que nos Estados Unidos significa aposentadoria compulsória para cargos eletivos, o presidente Barack Obama fez um gol de placa. A aproximação entre a Washington e Havana é o mais emblemático gesto pela paz em muitas décadas, desmontando meio século de estupidezes e desinteligências de parte a parte. A atitude corajosa do presidente americano, ao confrontar a parcela altamente conservadora que tem radicalizado em posições atrasadas e crescido nas urnas, também chamou atenção do mundo. E, de certa forma, mesmo tardiamente, aproxima a biografia real de Obama do Prêmio Nobel da Paz que (até então imerecidamente) havia recebido ainda no início de seu primeiro mandato. Antecipado como aposta, a cobiçada honraria, mesmo ainda hoje, seis anos depois, aguarda gestos pacifistas dignos de nota por parte do primeiro presidente negro dos Estados Unidos; daí a distensão implantada em relação à Cuba ser o primeiro atendimento por parte dele para com o crédito dado pela Fundação Nobel. Altamente simbólica foi, igualmente, a troca de prisioneiros políticos. Cuba liberou o americano Alan Gross e os Estados Unidos soltaram os cubanos Gerardo Hernández, Ramón Labañino e Antonio Guerrero, integrantes do grupo conhecido como ?Los Cinco? ? os outros dois membros já haviam saído da prisão e retornado à Cuba em 2013, depois de pagaram integralmente suas penas. Avanço dos direitos humanos em ambos os lados, com essas liberações dos quatro presos políticos (todos acusados de espionagem), mas uma chaga continua supurando em terras cubanas: o Campo de Concentração de Guantánamo. A denominação correta é essa mesma ? não confundir com Campo de Extermínio ?, sendo um total absurdo a existência, em pleno século 21 de um equipamento semelhante aos criados e usados pelos nazistas na Alemanha dos anos 30 e 40. Obama ainda tem muito trabalho pela frente, apenas no item ?Cuba?, basta lembrarmos a permanência ainda do famigerado bloqueio à ilha. Mas a iniciativa do presidente dos Estados Unidos, concretizada com o apoio e articulação pessoal do Papa Francisco e do governo do Canadá, é o mais importante gesto pacifista neste ainda iniciante século 21. Oxalá siga adiante nesse caminho, pois ainda lhe restam quase dois anos de mandato. O mundo agradece.