Opinião
ELOGIO AO PECADO - 2
Santo Agostinho teve mulher e filho mesmo sem se casar oficialmente. Após a conversão como poderia fazer coabitar a pureza com malícia plantada e germinada dentro de sua alma? Como evitar o desejo, se um simples lampejo de prazer fazia tremer seus nervos e seu sexo se revelava vivo? Não seria a razão para que tenha dedicado dez capítulos do livro ?A Cidade de Deus? para tratar da ?libido?? O texto é uma verdadeira confissão de quem não consegue compreender o seu próprio corpo. Um questionamento a Deus como se Este tivesse criado o pecado. E finalmente um elogio ao pecado, como a essência da criação: ?Não temos a menor duvida de que o crescer, multiplicar-se e povoar a terra, segundo a bênção de Deus, é dom do matrimônio, instituído por Deus desde o princípio, antes do pecado, ao criar o homem e a mulher. O sexo, evidentemente, supõe algo carnal. E a essa obra de Deus seguiu imediatamente sua bênção.?(Livro II- Cap. XXII) Esta, no entanto, é apenas uma questão que cede lugar, a um problema inda maior, no entendimento do Santo: ?A libido surgiu depois do pecado e, depois do pecado, nossa natureza, pudica, despojada do domínio que tinha sobre o corpo, sentiu esse desarranjo, adverti-o, envergonhou-se dele e cobriu-o?. (Cap.XXI) Qual o sentido real que tem em mente acerca do significado de libido? Para ele é muito mais que o desejo e o enrijecimento do pênis. É ter consciência do que se passa consigo mesmo. É algo que ultrapassa o lado fisiológico e se instala no aspecto moral e se mistura com o erotismo que é fruto do homem malicioso que conheceu o pecado. Um questionamento muito parecido com o que Paulo faz em sua Carta aos Romanos, capítulo 7 versículo 7: ?(...) mas eu não conheci o pecado senão por intermédio da lei. Pois eu não conheceria a concupiscência se a lei não dissesse: Não cobiçarás.? Portanto, a considerar este enunciado, se o pecado é uma consequência da lei, logo a libido também o é. Isto, levando em conta, que para Agostinho a libido só deixa de ser fisiológica, pela plena razão do homem sobre o seu ato. Caso contrário, o desejo sexual não viria acompanhado do erotismo. É como se para ele, a bênção de Deus para a união entre o casal no Éden não previsse o pecado. Ou se o sexo não representasse (ou não pudesse representar) o prazer e sim apenas a função de procriar. E isto é verdade sobre o aspecto teológico. Deus diz apenas: ?crescei e multiplicai?. O resto é uma consequência que Agostinho não consegue digerir. Este pensador traz consigo o problema ao seu próprio tempo e a si mesmo. Imagina como pode ser pecado algo inerente à natureza humana.