Opinião
O ONTEM REVIVIDO
Deu-me ontem de rever velhas fotografias de infância, antigas imagens perdidas num álbum que me fizeram voltar no tempo, como se fosse possível, por um instante apenas, de novo passear pelos caminhos dantes percorridos, revendo rostos que se perderam na cinza das horas. Lembrei-me do que disse Mauro Mota, poeta pernambucano: ?O retrato vive na minha sala muito mais vivo do que eu mesmo porque é o que fui?. De certo modo revivi com as lembranças pungentes, os velhos sonhos resgatados como peixes fisgados no oceano da desilusão, cantigas de outrora ressoando pelo chão de terra batida, brotando da areia como flor de formosura. Vi de novo o menino tímido e franzino que corria medrosamente pela pequenina rua 7 de setembro, a menor da minha Murici na década de 70, observando com curiosidade as figuras que cruzavam a ponte sobre o rio Mundaú em busca das coisas da cidade. Muitos pés descalços e rachados, cabeças cobertas por chapéus de palha ou amarradas por panos que um dia haviam sido brancos, agora encardidos pelo muito uso. Moleques buchudos com o nariz escorrendo, nus da cintura pra cima e agarrados à saia da mãe, os olhos espantados diante das novidades que se lhes apresentavam. Revi o sobrado do finado Odilon Maciel, os janelões do seu primeiro andar entreabertos como se guardassem segredos proibidos aos nossos pés infantis, sugerindo histórias de malassombros amedrontadores. Logo em seguida a casa de Mozart Damasceno, com a sua pioneira horta orgânica e os seus passarinhos amestrados, deleite para a alma de comensais vindos até de além-mar. Benzedeiras espantando o mau-olhado, cachaceiros tombando na calçada da venda do seu Horácio, Regina Cachinho conduzindo Santa Luzia numa caixa de sapatos ornamentada de flores e fitas coloridas, ao som da bandinha de pífano desafinada. João Balaio andando ligeiro, Vigia riscando a calçada com o seu cavalo de pau. Novamente é Mauro Mota quem nos diz: ?Os velhos papéis guardam o tempo vivo e novo. Levam-nos para ele também como fomos e como foram as pessoas das nossas antigas convivências. Tudo recompõe tudo: cartas, retratos, recortes de jornal?. As velhas fotografias guiaram-me pelos desvãos dos sentimentos nunca esmaecidos, revelaram-me uma vez mais o ontem que nunca se apaga e que brilha, forte, quando o hoje coleciona sombras funestas. E me fizeram repetir com Fernando Pessoa: ?A criança que fui chora na estrada;/ deixei-a ali, quando vim ser quem sou./ Mas hoje, vendo que o que sou é nada,/ quero ir buscar quem fui onde ficou?.