Opinião
Coisa de suecos
EDUARDO BOMFIM * Há uma rara oportunidade, um pouco exagerada por vários, desdenhada por muitos, de mudar as coisas. Há incontáveis céticos, mas existem dezenas de milhões de crentes. Não diria exatamente que as injustiças vão desaparecer. Recebi neste Natal um cartão cujo desenho era uma pintura do Bajado, artista de Olinda. Nele, um poema de Drummond de Andrade, intitulado ?Receita de Ano-novo?, cujos versos dizem ? Para ganhar um ano-novo que mereça este nome, você tem que merecê-lo, tem que fazê-lo, eu sei que não é fácil, mas tente, experimente, consciente. É dentro de você que o ano-novo cochila e espera sempre, voltar. O nosso povo tem uma forma extremamente criativa de superar os imensos infortúnios de que padece e que os economistas, principalmente estes últimos que prescreveram fórmulas trágicas para a sociedade, transformam em números e cifras palatáveis. Prontas para o consumo de consciências mais sensíveis. Durante dias, mães e pais de famílias pobres ficaram em uma interminável fila para matricular seus filhos em uma escola da cidade, segundo nos informou a TV Educativa de Alagoas. Até que chegou o dia 31 de dezembro. Fizeram uma lista que nomeava os presentes, além da ordem em que se encontrava cada pessoa. Foram para suas casas, confraternizaram-se com seus parentes e amigos e retornaram após as festas do ano-novo. Creiam-me, um Estado e uma nação que possuem uma gente com semelhantes traços de solidariedade e inventividade, não pode desencontrar-se de um grande destino. Os desprovidos de sentido coletivo ou humanismo, como queiram, jamais compreenderão como é possível este contrato social, esta verdadeira pedagogia dos oprimidos, esta ordem pactuada, este profundo respeito pelo justo, esta cooperação, esta cultura concreta, real e incontestável. Mas são exatamente estes, os descrentes, do alto das suas lamentações e miudezas existenciais, que não acreditam na enorme energia criadora do povo brasileiro. Se tal fato fosse narrado sem a descrição do lugar, diriam sem vacilar que isso é coisa, no mínimo, de sueco, país rico e de população educada. São tão ordeiros, levam uma vida absurdamente monótona, que segundo a imprensa, dedicam-se ao suicídio como hobby nacional. São exatamente estes enfastiados descrentes de tudo e de todos que de vez em quando levam um susto tremendo quando o populacho sai dos trilhos. São assim como este corretor ortográfico do Word que teima em não reconhecer o pintor Bajado (insiste em Babado) e o poeta Drummond (sem sugestões ortográficas). Falando no poeta, fiquei pensando e concluí que ele fez por merecer os milhões de anônimos que lhe deram a beleza da linguagem e expressão dos sentimentos. (*) É ADVOGADO