Opinião
ELOGIO AO PECADO 3
Agostinho era antes de tudo, um cidadão romano com uma vida pública meritória perante o império. Sua conversão se interpõe não só ao paganismo como a Roma. Fazer-se um líder espiritual do Cristianismo era mudar a sua natureza humana consagrada até então aos prazeres do pecado. Não era fácil espiritualizar-se quando a sua própria carne gritava pelo vício. Era ma força que ia além de toda a espiritualidade que tanto buscava: ?É verdade que a ordem natural ao corpo antepõe o espírito; contudo, o espírito domina com maior facilidade o corpo que a si mesmo. Mas a libido de que tratamos é tanto mais vergonhosa quanto o ânimo não tem poder absoluto sobre si mesmo, para não agradar-lhe, nem sobre o corpo, para mover-lhe a vontade, não a libido, que mova tais membros vergonhosos.?(Cap.XXIII) Agostinho reconhecia que não tinha poder sobre si mesmo em relação ao seu próprio desejo, e a sua própria libido. E este tormento é revelado com a profundidade pueril de um adolescente que não consegue compreender suas transformações. Envergonha-se do funcionamento de seu corpo. Talvez por isso declarasse: ?(...) eu provo do mal que reprovo.? Se não era possível vencer o pecado, pelo menos, tentar compreendê-lo. E lá no Cap. XXIV, finalmente chega a conclusão de que a libido é apenas fruto da malícia e do erotismo vulgar quando escreve: ?Ali(se referindo ao Éden) o homem semearia e a mulher receberia o sêmen, quando e quanto fosse necessário, sendo os órgãos da geração movidos pela vontade, não excitados pela libido.? Um jogo de palavras que substitui ?libido? pela simples ?vontade?. O que sabemos não ser verdade. Não basta a vontade, sem a libido para que se tenha um ato sexual. O que Agostinho queria, realmente, era conjugar a relação marital a uma esfera de santidade que estivesse acima daquilo que considerava tão vergonhoso: a libido. Sua busca incansável pela santidade esbarrava em sua própria natureza humana e pecaminosa. Portanto a melhor forma de encarar o pecado era admitir que este só existia por causa da lei. Gaspar Balaeus que relatou toda a saga do Príncipe de Nassau durante a invasão holandesa também concluiu, numa frase famosa onde ressalta que ?abaixo da linha do equador não havia pecado?. Referia-se o Historiador a licenciosidade com que se relacionavam os estrangeiros com os aborígenes brasileiros. No entanto, voltando a Cristo vamos lembrar quando nos aconselha ?ser iguais às crianças para entrar no Reino dos Céus?. Na sua essência, nossos aborígenes eram como crianças e também não conheciam a Lei.