Opinião
DOIS MIL E QUINZE
Eis que chega o ano-novo, e com ele todos os sentimentos que, despertados pelo Natal, acalentam o nosso coração a cada início de calendário. Tocados pelo menino-Deus na singeleza da manjedoura de Belém, sentimo-nos de fato pertencentes à grande família humana, unidos pelos laços atávicos que nunca deveriam ter-se perdido na inexorabilidade do tempo. Ao menos nessa época, lembramo-nos de que somos todos irmãos, abrigados na mesma mãe-terra que nos oferece flores e frutos. E ficamos mais propensos ao abraço acolhedor, ao sorriso iluminado, à palavra de incentivo e de estímulo. Pouco importa se não temos ouro, incenso e mirra, como os três reis magos; trazemos o nosso coração repleto de esperança e de sonhos, e é ele que nos levará adiante por todo 2015. Pouco mudamos, é bem verdade, entre 31 de dezembro e 1º de janeiro. Restamos como éramos, cheios de dúvidas, imperfeições, temores e uma mania desgraçada de cometer erros primários. Mas com o ano novinho em folha, 365 dias à nossa inteira disposição para o que der e vier, permitimo-nos um pouco de autocomiseração, não queremos escutar o que o espelho nos joga na cara a cada manhã. Basta de acusações repetitivas, chega de nos lembrarmos do que em nós é peso e sacrifício. Desejamos primaveras, e não invernos; lumeeiros, e não sombras; risos, e não lágrimas. Que saibamos valorizar as coisas simples, e por isso mesmo tão preciosas, tesouros ao alcance das nossas mãos às vezes ávidas pelo que não nos pertence: a saúde do filho, a ternura da mãe, o prazer da mulher amada, o imenso mar azul que transpõe a praia e invade as nossas retinas com tanta beleza, a árvore frondosa que se espicha rumo ao céu sem perder a firmeza das suas raízes apegadas ao chão nativo. Que não nos esqueçamos da poesia e do canto, da arte e do encantamento, do silêncio que nos revela o divino que há em nós, da gargalhada e do choro ? duas faces dessa mesma moeda que se chama existência. A frase parece lugar-comum, mas desejar um feliz Ano Novo é realmente o primeiro ímpeto da nossa alma, nesse tempo de tanta luminosidade e alegria, onde o nosso coração parece ficar mais propenso à bondade e à solidariedade. Mercadoria rara hoje em dia, essa tal felicidade, quando nos vemos imersos em tanta correria, em tantos deveres a cumprir, em tantas contas a pagar. Que ela venha até nós, então, e caia em nosso colo como uma dádiva de Deus, afago sereno em nosso rosto cansado, toque macio que nos faça dormir o sono dos justos ? talvez até sonhar, quem sabe?