Opinião
Contra todo o radicalismo
A frase Je suis Charlie (Eu sou Charlie) dominou ontem as redes sociais em todo o mundo, depois que 12 pessoas foram mortas num ataque ao jornal satírico francês Charlie Hebdo. Entre as vítimas, o diretor da publicação, Stéphane Charbonnier, de 47 anos, e Georges Wolinski, de 70 anos, considerado um dos maiores cartunistas do mundo. Charges do profeta Maomé publicadas pelo jornal já haviam causado protestos da comunidade muçulmana no passado. Polêmico pela sátira persistente, alimentada pela publicação de caricaturas de Maomé, nem mesmo ataques às suas instalações e inúmeras ameaças de morte detiveram a publicação de manter a sua linha. Os caricaturistas mortos ousaram mexer com algo ? o fundamentalismo islâmico ? que os impedia de se expressar no mesmo tom que usaram tantas vezes para debochar de outras religiões, como o cristianismo. Nas últimas décadas, grupos religiosos e políticos de países periféricos, como os do Oriente Médio, vêm recorrendo ao terror como forma de enfrentar o que, em seu ponto de vista, representa uma ameaça aos valores culturais, éticos e religiosos dos povos a que pertencem. Não por acaso, alguns desses grupos têm como fonte de inspiração o fundamentalismo islâmico. Com 1,3 bilhão de seguidores, o islamismo é a religião que mais cresce no mundo. A maioria dos muçulmanos encontra-se em países pobres. Ao mesmo tempo em que cresce o islamismo, crescem também os grupos fundamentalistas em seu interior, alguns deles formados por extremistas empenhados na criação de sociedades regidas pelo Alcorão. O atentado ao Charlie Hebdo mereceu a devida condenação da sociedade, de governos e instituições, inclusive muçulmanas, que afirmam que os acontecimentos nada têm a ver com os princípios islâmicos, mas sim com uma interpretação equivocada dos preceitos do Islã. De fato, trata-se de um ato monstruoso e covarde, que trucidou vidas e também feriu direitos fundamentais relativos à liberdade de expressão, por isso o mundo espera uma resposta. O radicalismo, seja ele religioso quanto político, deve ser combatido. O certo é que o trágico acontecimento permite antever movimentos complicados na França e em outros países onde a intolerância pode vir a ganhar voz.