Opinião
Ouro de Cuba
RONALD MENDONÇA * Ainda que desqualificado pelos militares como feriado, o catolicismo continua a pontuar o 6 de janeiro para relembrar suposta visita de 3 misteriosos reis que, vindos do Oriente guiados pelo brilho de insólita estrela, foram adorar o Menino levando os conhecidos mimos: ouro, incenso e mirra. Há quem calcule que Baltazar, Melchior e Gaspar, o nome das criaturas, viajaram em lombo de camelo, em caravana, durante 70 dias. Supõe-se que algum grau de amizade os unia, se não antes, pelo menos durante a dura empreitada tiveram tempo de se relacionar. De raças diferentes (negra, branca e amarela), as evidências apontam que os viandantes combinaram num detalhe: não repetir presentes. É obscuro o papel desses reis depois que regressaram aos seus domínios. Mais obscuro ainda é o porquê de serem chamados de ?magos?, uma vez que não se conhece nenhuma mandrakaria por eles assinada. Se reis andam em baixa nos dias de hoje, os magos estão com a corda toda. De diferentes matizes e com metodologia diversa, os magos pós-modernos, debruçados em cartas de baralho, conchas, búzios, mapas e até nas ortodoxas bolas de cristal e leitura de mão, prenunciam desgraças e bonanças, nascimentos e mortes, namoros e separações, conchavos políticos e outras safadezas impublicáveis. É pena que, às vezes, certamente por ética, os preclaros adivinhos evitem dar nomes aos bois. A felicidade é que ao lado dos vaticínios, por mais terríveis que possam parecer, os bruxos do terceiro milênio preceituam fórmulas capazes de ?furar? o destino. Mas ai daquele que não segui-las à risca. A propósito, lembro de um amigo que confessou seu amargo arrependimento por não ter colaborado, por pura mesquinhez e incredulidade, com R$ 50 para a compra de velas e outros artefatos, exigência de uma experiente cigana para evitar sina de iminente e irreversível impotência. A grande verdade é que a profissão saiu das sombras e está praticamente regularizada, se não de direito, pelo menos de fato. A própria Academia Brasileira de Letras, reconhecendo o valor dessa gente, recentemente deu posse a um desses. Línguas ferinas costumam dizer até que, hoje, atrás de um empresário de sucesso ou de um político vitorioso, em vez de uma mulher ?como antigamente ? há um competente bruxo. Contudo, o que eu queria comentar mesmo era a presença de Fidel Castro na cerimônia de posse do companheiro Lula. Simpático, quase bonachão, surfando num par de tênis Reebok, o velho ditador está a ponto de virar o abominável ícone Papai Noel. Guiado pela estrela do PT, nesse momento, no entanto, a figura meio esquálida do comandante, com suas longas barbas a caju, está mais para um misto de Quixote e Reis Magos. Na bagagem, em vez de ouro e incenso, os cobiçados Cohiba. (*) É MÉDICO E PROFESSOR DA UFAL