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Opinião

QUEM PEDE PELO TIRANO?

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Preso outro dia em um dos muitos gargalos do trânsito de Maceió, percebi quando um homem idoso se aproximou e entregou-me um papel dobrado, dizendo ?leia, é bom para o senhor e para a sua família?. Achei tratar-se de alguma mensagem de cunho religioso, mas, ao chegar em casa, a surpresa se apresentou. O texto, sofrível, diga-se, introduzia-se com uma referência saudosista à ditadura militar, e seguia exortando o leitor a apoiar o retorno ao regime, sob o fundamento de proteger a família e a sociedade dos muitos males que as afligem, como a insegurança pública e a corrupção; a meu ver substitutos capengas para a desculpa da doutrina de ?segurança nacional? dada para justificar o golpe civil-militar de 1964. O tal texto propalava a volta do Estado forte, do leviatã marchando sob a batuta de um militar com poderes acima da lei e dos direitos individuais e coletivos, acima do bem e do mal: um ditador. Deu vontade de rir, enquanto lembrava uma frase ímpar de Caetano Veloso: ?será que nunca faremos senão confirmar a incompetência da América católica, que sempre precisará de ridículos tiranos??. O apelo autofágico pela volta da tirania, de início restrito às redes sociais, começa a ganhar as ruas. E preocupa, porque o Brasil andou por quase toda a sua história de mãos dadas com o autoritarismo. A própria República foi apeada da garupa do cavalo do Marechal Deodoro da Fonseca, convencido a usar o exército para apoiar os ?republicanos? no ?golpe? contra o combalido monarca D. Pedro II. República sim, democracia não. Essa tendência autoritária voltaria anos mais tarde com o Estado Novo de Vargas, sufocando os poucos suspiros de democracia dos anos 1934-1937. Depois da breve calmaria dos ?anos dourados? de Juscelino, cai sobre a nação a tenebrosa ?noite dos coturnos?, engessando por mais de vinte anos o amadurecimento da democracia. O Brasil não consegue superar crises, reais ou imaginárias, sem recorrer ao ?senso comum autoritário? e seu adubo das ideias antidemocráticas. É assim que, por não se reconhecerem como operários na construção de sua democracia, muitos brasileiros dão de ombros &agra ve;s suas obrigações como cidadãos conscientes, e entregam - sem hesitar ? a tarefa de defender seus direitos nas mãos de ?ridículos tiranos?. Não custava àquele senhor refletir que só a democracia lhe permite até mesmo o direito de distribuir um texto tão ridículo quanto a própria tirania por ele defendida. Imaginemos que nosso inusitado panfletador fosse um ex-escravo. Se eu resolvesse lhe propor a volta da senzala como sendo ?bom para ele e sua família?, com certeza, e com razão, me diria: ?Ora, não seja ridículo?! Ora, indago eu, quem pede pelo tirano o é menos?

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