Opinião
Radicalismo e toler�ncia
Ainda sob a comoção pelo ataque terrorista ao jornal satírico francês Charlie Hebdo, que causou a morte de 12 pessoas na semana passada, o que já se discute é quais consequências podem ter esse atentado em um contexto de tensão crescente na França e na Europa em torno de temas como o Islã e a imigração. O ataque aconteceu em meio a uma aparente onda de xenofobia na Europa, combatida por um movimento, também crescente, de apoio à tolerância. A verdade é que nunca se falou tanto do Islã nos meios de comunicação e nunca se estigmatizou tanto o Islã na Europa. Na França vivem cerca de cinco milhões de muçulmanos, a maioria nas periferias em condições precárias. São altamente discriminados a ponto de surgir uma verdadeira islamofobia. Tanto é que o livro do polêmico Eric Zemmour, O suicídio francês, que considera que a imigração é uma das causas dos problemas da França, esteve no topo da lista de livros mais vendidos no país no ano passado. Na Alemanha, o governo está preocupado com a sua imagem no exterior em função das manifestações contra a ?islamização? do país. A crise econômica europeia, longe de terminar, também serve de argumento para aumentar o ódio aos imigrantes, sobretudo os muçulmanos. Desemprego, retirada de benefícios sociais, falta de moradia e de assistência médica ajudam a alimentar a tese de que a culpa pela crise é dos ?estrangeiros?. Paixões à parte, é preciso ter em mente que ações terroristas não acontecem por acaso. Geralmente há por trás um histórico de tragédias, matanças em massa, humilhações e discriminações, que encontram no fundamentalismo religioso campo fértil para atos extremos. Tais atos são crimes contra a vida e devem ser abominados e combatidos com firmeza, independentemente da motivação. Ao optar pela prática terrorista, pessoas ou grupos não buscam ocupar territórios, mas ocupar mentes. Por isso, suas ações geralmente têm caráter de espetáculo, sugerem uma preparação minuciosa e audaciosa, e são praticadas com o propósito de gerar medo e pavor. Passada a comoção, será importante combater as vozes da intolerância e da segregação na Europa, que certamente vão surgir. No caso da Europa, a xenofobia e o radicalismo islâmico acabaram alimentando um ao outro.