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Opinião

Somos mais que um conjunto de homo sapiens

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É aceitável torturar um terrorista para salvar crianças inocentes? Para responder essa questão, primeiro devemos entender quais são as variáveis envolvidas. Mudemos um pouco a situação. Um terrorista colocou uma bomba num presídio onde há apenas torturadores. Você ainda mandaria o carrasco torturar o suspeito? A resposta aqui aparentemente é negativa, não faz sentido torturar para salvar torturadores. Fica claro que um dos elementos principais no dilema da bomba relógio é a inocência das crianças. Nossa mente faz uma conta moral e chega ao resultado de que mesmo sendo a tortura um mal, é um mal menor que deixar morrer crianças inocentes. A inocência das vítimas é parte essencial da equação. A outra parte é a culpa do terrorista. Vejamos: o terrorista preso não sente dor, mas se torturarmos seu filho bebê, ele se entrega e salvamos as crianças. É certo torturar nesse caso? De supetão, pensamos que não, ai já não é mais certo. Mas depois, pensando melhor, podemos aceitar que maltratar uma criança para salvar várias é uma conta justa. Mas e se tivermos que torturar várias crianças para salvar uma? No fim, parece que não há como fugir do consequencialismo. Parece que a única forma de decidir é calcular o mal menor. Será? Última situação: uma cidade onde milhões de pessoas nunca sofrem, mas que para permanecer assim, é necessário torturar uma criança ininterruptamente por toda sua vida. Você aceitaria isso? É apenas uma criança, os beneficiados são milhões. Não tem jeito, mesmo que você queira responder sim, algo em seu âmago dirá não. Ativistas dos direitos humanos tentam desarmar a cena da bomba-relógio inocentando o terrorista, ao afirmar que os direitos fundamentais valem para todos, até para ele. Mas esse argumento não vence o consequencialismo. Para tal, é preciso fazer justamente o oposto, culpar as vítimas. É preciso aceitar profundamente o conceito de Humanidade. Aceitar que somos um conjunto único de seres superiores, porque racionais, corresponsáveis por nossas escolhas. É o que chamamos de civilização. Ao aceitar a tortura de qualquer ser humano, mesmo um terrorista, nós tornamos todos, toda a Humanidade, torturadores. Todos mesmo, até as crianças. Nos tornamos abomináveis, vilões, culpados. De forma que o dilema se iguala àquele quando a bomba está em um presídio cheio de torturadores. Homens que aceitam a tortura não merecem ser salvos por ela.

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