Opinião
Guerra Santa
Nada justifica a barbárie, nada justifica o terror. Os assassinatos dos jornalistas franceses perpetrados na semana passada por radicais islâmicos trouxeram à tona ?o? debate sobre algo que a humanidade acreditava ser coisa do passado, questão resolvida: a liberdade de expressão por intermédio da imprensa. Os extremistas justificaram o ato vil afirmando terem vingado o profeta Maomé, ?atingido? por charge publicada pelo semanário Charlie Hebdo, caracterizado por ser satírico, ácido e, por vezes, até mesmo cruel. A charge em questão (a maioria não viu) mostrava o profeta ?de quatro?. O hebdomadário exerceu a pura e legítima liberdade de imprensa e foi atacado por isso. No dia 12 de outubro de 1995, o bispo Sergio Von Helder, da Igreja Universal do Reino de Deus, chutou uma imagem da Nossa Senhora Aparecida num programa de TV. Era o dia da padroeira do Brasil e a cena chocou a todos ? foi destaque na mídia mundial. O caso teve tal repercussão que o bispo acabou deixando o País indo morar nos Estados Unidos. Ninguém pegou em armas para vingar a santa, nenhum membro da Igreja Universal do Reino de Deus foi agredido, ou ficou com medo de sair de casa, a polícia não precisou ir às ruas para garantir a segurança de todos. Prevaleceu a democracia, ou o princípio atribuído (o escritor francês não deixou isso escrito) a Voltaire: ?posso não concordar com o que dizes, mas defenderei até a morte o direito de dizê-lo?. O islamismo proíbe qualquer representação visual do profeta Maomé, o que gera autocensura, tanto no Oriente quanto no Ocidente, e situações curiosas. No filme ?Maomé ? o Profeta de Alah?, de 1976, estrelado por Anthony Quinn, o profeta nunca aparece, está sempre na perspectiva da câmera ? como se os personagens se dirigindo ao profeta falassem com o espectador. Mesmo assim, o diretor, o sírio Mostafa Al-Aggad, acabou vitimado em um ataque suicida praticado por militantes islâmicos na Jordânia, trinta anos depois. A jihad, a guerra santa dos maometanos, está longe de acabar, mas se trata de algo desigual: de um lado papel, lápis, páginas nos computadores, discursos, músicas; do outro tiros, fuzis, bombas, sangue e morte. Cada atentado fere um pouco a democracia, que cambaleia, mas não cai. Jesus Cristo nos ensinou a perdoar. É fundamental que a humanidade não se esqueça disso, sem esquecer também que a Justiça se faz necessária.