Opinião
JE SUIS CHARLIE, SIM!
Quando nos deparamos com o atentado em Paris, além de nos sentirmos chocados, nos perguntamos qual a razão que move essas pessoas. A barbárie se traveste de motivação religiosa, ideológica ou política a pretexto de justificar suas ações e ganhar a simpatia de fanáticos, ignorantes e recalcados. O jornal Charlie Hebdo sempre fez críticas ácidas através de suas charges sem poupar quem quer que fosse. Gostar ou não depende de suas convicções ou da forma que você pensa! Fato é que não podemos ver assassinatos como algo compreensível em razão da ação ou omissão das vítimas. Quem já não ouviu a retórica que a moça foi estuprada porque usava roupas provocantes? Quem não lembra do argumento, aceito por anos a fio em nossos tribunais do júri, de que o marido traído podia matar à sua esposa para lavar a própria honra? Como tudo na vida, você pode gostar ou não do estilo das charges do Charlie Hebdo, mas o direito que tem o chargista, a imprensa ou qualquer cidadão de expressar a sua visão de mundo sem ser agredido fisicamente e até assassinado é um direito conquistado pela civilização. Não há como dialogar com o fanatismo que não conhece e nem deseja o diálogo. Para essas pessoas o que importa é o uso da violência como meio de alcançar os seus propósitos. Se você ?compreender? a razão do ataque ao Charlie Hebdo, você também ?compreenderá? o ataque à revista Veja após esta noticiar que Lula e Dilma sabiam dos crimes da Petrobras. Como assinalou um periódico, o discurso é falso quando você se diz con tra a censura, mas deseje o controle social da mídia, eufemismo utilizado para defender a censura prévia! Pois é, dai-me os olhos que verei o que desejo... Balzac, em os ?Pequenos Burgueses?, depois de afirmar pela boca de Teodósio que fé não se discute, afirma parodiando ao evangelho de São João: ?Una fides, unus Dominus? (uma só fé, um só senhor)! Se Deus é um só, não serão ações covardes em nome da religião que mudarão os fatos, sejam seus autores mulçumanos, cristãos ou ateus. Eu sou Charlie sim... Não aprovo várias de suas charges, mas defendo o direito de publicá-las e entendo que os fins não justificam os meios. A liberdade de expressão é um dos pilares dos ideais democráticos e não há volta quando o retorno significa o renascimento das trevas da ignorância, da intolerância e da violência. A multidão nas ruas de Paris gritou alto e fundo em seu silêncio e com elas eu repito, sim, Je suis Charlie!