Opinião
Um recado que vem da Gr�cia
Contados os votos na Grécia, o Syriza se tornou o primeiro partido anticapitalista na história europeia a vencer uma eleição nacional e promete varrer a dívida imposta pelos banqueiros e reverter os cortes nos programas sociais que resultaram no empobrecimento da população. Nascido como uma coalizão de 13 grupos e partidos que inclui maoistas, trotskistas, comunistas, ambientalistas, social-democratas e populistas de esquerda, o Syriza tinha pouca força eleitoral até 2012. Sob a liderança de Alexis Tsipras, a vitória consagradora faz da Grécia o primeiro país da União Europeia frontalmente contra as políticas econômicas ortodoxas do FMI e do Banco Central da Alemanha. O exemplo grego merece, sem dúvida, uma reflexão. Com uma dívida pública na estratosfera, o país precisou de uma linha de crédito emergencial para evitar a moratória. Em 2010, a União Europeia (UE) e Fundo Monetário Internacional (FMI) concederam à Grécia um pacote de resgate de mais de US$ 130 bilhões. Em 2012 verificou-se que esses fundos não eram suficientes e um resgate adicional foi anunciado, desta vez no valor de mais de US$ 150 bilhões. A contrapartida para a concessão do novo empréstimo era que o governo grego adotasse medidas rigorosas de austeridade para reduzir os gastos com saúde, educação e outros áreas. O custo dessas medidas tem sido enorme, com cerca de um terço dos gregos em risco de pobreza e exclusão social e uma taxa de desemprego superior a 25%. A classe média se sente maltratada, com muitos desgastados pelos anos de cortes, daí a aposta numa mudança radical. O Syriza promete aumentar o salário mínimo, restaurar a eletricidade onde ela foi cortada e oferecer cobertura de saúde para os desamparados. É um programa ambicioso, e críticos duvidam que ele poderá cumpri-lo. O que se pergunta agora é que se a guinada grega é um fato isolado ou se trata da primeira manifestação de exaustão, no mundo, do receituário conservador para combater a crise econômica, impulsionando outros partidos de extrema esquerda. Pode-se discutir até mesmo o reflexo disso no Brasil, no momento em que o governo Dilma Rousseff adota medidas ortodoxas para combater a inflação e a desconfiança do mercado, justamente aqueles que foram repudiadas nas urnas pelos eleitores gregos.