Opinião
Voando alto
A cidade de São Paulo tem a segunda maior frota de helicópteros do mundo ? até 2013 eram 452. Num trecho da Vila Olímpia (zona oeste) há nada menos que 25 helipontos ? 12 quase que lado a lado ? enquanto que o número de paradas de ônibus na mesma região chega a 24. A discrepância traduz a realidade perversa da injusta distribuição de renda no Brasil, um país de contrastes abissais, onde o ter (acumular riquezas) é mais importante que o ser (exercer a cidadania de forma solidária). A dualidade helicópteros versus ônibus, pode ser estendida também para carros de luxo versus ônibus ou trens ou metrô, o que denota que o arcabouço do transporte no nosso País não está voltado para quem precisa. Segundo estudos realizados pelo Instituto de Pesquisa Econômica (Ipea) perto da metade da população depende do transporte público para se locomover. Contudo, os levantamentos indicaram também que o serviço prestado é ruim, além de não oferecer segurança. Foi por isso que muita gente foi às ruas no ano passado. O serviço é tão precário que além da casa própria, o brasileiro (quem pode) sonha também com o carro próprio. Um fato emblemático dessa situação absurda é a exigência (justa) de cadeirinhas para crianças nos automóveis ? a multa é pesada em caso de infração. Mas quem legislou nesse caso parece não dar a mínima para milhares de mães que tomam ônibus todos os dias carregando criança de colo. Viajam, muitas vezes, de pé, se segurando como podem - nos ônibus urbanos não há limite de lotação ou cinto de segurança. Antes disso, as mães têm que enfrentar longas caminhadas para chegar às paradas de ônibus, que não possuem sinalização nem abrigo para sol ou chuva. Isso acontece em todo o País. Há poucos dias, o ator Tom Hanks foi fotografado num vagão do metrô de New York. Ele o fez porque lá o trem não deixa a desejar. Já aqui, quem admite que se sente bem andando de metrô ou ônibus? Daí, as ruas cheias de carros, o trânsito engarrafado, o stress. Há também, o preconceito com relação ao transporte coletivo. Convencionou-se que andar de ônibus ?é coisa de pobre?. Chique é sair de casa de helicóptero. A atriz Lucélia Santos foi flagrada num ônibus e as redes sociais não perdoaram: está passando fome! Faltam investimentos para o setor de transportes no Brasil, mas falta também uma legislação moderna que proteja o usuário e resgate a dignidade da locomoção coletiva. Quem sabe um dia tenhamos orgulho de andar de ônibus.