Opinião
ELOGIO DA PERF�DIA 2
Mesmo sem perfídia alguma existem pessoas que farejam o mal vindouro. Mas as pessoas de caráter pérfido não se revelam, nem no olhar, nem sorriso, nem em gestos coléricos ou na curiosidade tão comum dos maliciosos. Passam anos a fio destilando seu veneno lentamente sem que qualquer deslize seja percebido. Regurgita sua bílis amarga enquanto encara tediosamente o tempo que passa até a hora letal de atacar sua vítima. Todo pérfido tem sua causa. Não podemos dizer sequer que se assemelha a serpente, porque esta já emana o perigo na sua imagem mesmo desprovida de peçonha. E ao contrário, a perfídia exige a voz da inocência, a quietude de quem está em paz e a argúcia de quem espreita silenciosamente. Os impacientes, dificilmente, possuem caráter pérfido e revelam-se explosivos ao menor litígio. A perfídia também exige inteligência. A vida é como um jogo onde qualquer um é adversário. Por isso cada passo é estudado e tramado com a técnica de um profissional. Sentimento? De pertença, do seu espaço, do seu mundo, dos seus segredos. Dificilmente confidencia. Conta alguma trivialidade de sua vida como trunfo para ouvir o companheiro (adversário). Descobre com astúcia os pontos fracos de cada pessoa e codifica sua marca. Poderia tratar cada um por um número, uma letra qualquer coisa que não representasse o mínimo afeto. No entanto, enseja este afeto publicamente como um ator numa representação de si mesmo. Chora se for necessário. Defende com a mesma facilidade com que condena, é só verificar qual a posição que mais lhe interessa. Por isso é capaz de derrubar e passar por cima e com igual frieza acudir e confortar o caído. Se morrer vai ao enterro da vítima e chora copiosamente com os familiares. O ciúme se constitui num peso tremendo ao espírito perturbado das pessoas pérfidas. Suas relações sociais ou funcionais, seja homem ou mulher, são sempre de posse. Não admitem interveniência. Reservam-se para si mesmos o privilégio da intimidade que não reparte. Vigia os demais como a predadores. Incita a discórdia e a desconfiança. Persegue. Enreda tramas e intrigas, vitimando-se publicamente. Depois reassume uma posição compassiva de quem está sempre disposta a perdoar. Torna-se exemplo enquanto a verdadeira vítima se torna ré.