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Opinião

ELA NOS ESPREITA

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Sem foguetes e sem violão, nesse último 31 de janeiro completei 39 anos em que deixei o Hospital do Servidor Público de São Paulo, depois de completar o treinamento em Neurocirurgia. Único alagoano a ficar entre os vinte classificados, de fato, ser admitido como residente do HSPSP não era uma tarefa das mais amenas. Mas o pior estaria por vir. Ser R1 era qualquer coisa que equivalia ao trabalho de um celerado. Já casado e com uma filhinha de um ano de idade, fiz jus a uma bolsa que dava para pagar o apartamento. O restante era enviado pelo pai. Grana contida, bem no estilo do doutor Zé Lopes, pouco afeito a excessos pecuniários. Sentia muito orgulho de pertencer ao Servidor. Embora tenha comido o pão que o diabo amassou. Não conto as vezes em que emendei o expediente depois de uma noite acordado. Caindo de sono, tinha de visitar e de prescrever para 60 pacientes. O teste final era ser arguido pelo chefe da Neurologia, o Prof. Roberto Melaragno, charmoso, raffiné, mas extremamente exigente. Livre Docente, Melaragno descendia de uma linhagem que incluía Charcot, P. Marie, Babinski, Garcin, dentre outros. Ele, Roberto Melaragno, tinha a noção exata da responsabilidade de herdeiro dessa Escola. Socialmente era desembaraçado, um incrível senso de humor em vários idiomas. Mais de uma vez foi nosso hóspede aqui em Maceió. O que eu queria dizer é que sou médico há 43 anos. Por força da minha especialidade, convivo no fio da navalha entre a vida e o seu oposto. Não sei se algum dia irei me acostumar com a magra sinistra. Os cirurgiões apreciam fazer chistes com a morte. Um dos meus mestres, já falecido (todos os meus mestres são saudades), na sua eloquência garantia que só três formas de morrer lhe agradariam: 1) Fazendo uma conferência; 2) durante uma cirurgia, ou 3) nos braços de uma mulher. Consta não ter sido contemplado... A morte da pediatra Gláucia Barros chocou-nos a todos. Inopinada e brutal, a ?sinistra? foi alcança-la numa curva da estrada de Arapiraca. Verdadeira operária da medicina, Gláucia trabalhava com a fúria dos catecúmenos. Ninguém é insubstituível, mas a desfalcada pediatria alagoana perdeu um dos seus quadros mais atuantes. Como chefes de família, a dupla morte (da mãe e dela ) transcende as tragédias shakespearianas.

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