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Sangue na terra

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Ontem, completaram-se os 10 anos do martírio da missionária católica Dorothy Stang, assassinada em Anapu, no Pará. A religiosa, nascida nos Estados Unidos e naturalizada brasileira, foi morta com seis tiros por causa de sua luta em favor da reforma agrária, luta que começou a incomodar madeireiros, fazendeiros e grileiros da região amazônica. Em dez anos, muita coisa mudou na pequena cidade às margens da rodovia Transamazônica por causa da vida e da morte da missionária. Pelo menos dois grandes assentamentos com mais de 400 famílias foram reconhecidos pelas autoridades federais após o crime. Há mudanças visíveis também nas condições de vida dos moradores, migrantes que chegaram a Anapu na década de 90 sem nada. Entretanto, o caso da Irmã Dorothy, apesar da grande repercussão, inclusive internacional, não é uma exceção na história de disputas por terra no País. Levantamento da Comissão Pastoral da Terra mostra que, entre 2005 e 2014, foram assassinadas 325 pessoas em razão de conflitos no campo. Mais da metade desses crimes aconteceu na Amazônia. Os crimes seguem um padrão muito semelhante. São mortes por encomenda, e a impunidade prevalece. Esse círculo vicioso de mortes, impunidade e mais violência alimenta uma indústria que vem financiando há anos o desmatamento da Amazônia. Até hoje, perduram muitos conflitos entre moradores das áreas fora dos assentamentos já reconhecidos. Os conflitos de terra na Amazônia estão inseridos num contexto maior, que é a questão agrária no País. A má distribuição de terra no Brasil tem razões históricas, e a luta pela reforma agrária envolve aspectos econômicos, políticos e sociais. Nas últimas décadas, os governos têm adotado um sistema que consiste na desapropriação e distribuição da terra em pequenos assentamentos. Entretanto, sem competitividade no mercado nem estrutura para engrenar a produção, em muitos casos, os pequenos produtores que ganham terras não acabam fracassando. Não há dúvida de que a reforma agrária é algo necessário, mas não pode ser entendida apenas como a distribuição de lotes a famílias de agricultores carentes. Trata-se de dar a eles condições de se fixar na terra, por meio de crédito e assistência técnica. Sem isso, não há como mudar a realidade no campo e evitar o êxodo rural.

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