Opinião
VOLTAS DO MUNDO
Escrevo esse texto lembrando da tarde em que fui sacaneado na Câmara Municipal de Maceió. Era uma ?Sessão Pública? de cartas marcadas. Antevia o escárnio, o opróbrio. Mesmo assim compareci. Ainda embalados pelo frenesi musical dos frevos e maracatus, certamente tentando esquecer a vergonha dos rombos na Petrobras e na Eletrobras, ainda não houve tempo para ler-se a matéria da página 78 da revista Veja desta semana. De fato, é um texto demolidor. Os companheiros que detonaram os hospitais psiquiátricos precisam ler essa reportagem. Não adianta negar. Recordo bem dos argumentos: ?os manicômios alienam, cronificam, maltratam e mantém a doença mental?... ?Donos dos ?manicômios? são monstros capitalistas que prescrevem drogas que alimentam delírios e alucinações?... Numa espécie de ironia do destino, um dos presentes, que participava ativamente do m que fazia campanha cerrada contra o eletrochoque, pirou. Faça-lhe-se justiça. O cara era tão poderoso que conseguiu banir o eletrochoque de Alagoas. Com isso, a psiquiatria perderia, em Alagoas, uma de suas armas terapêuticas mais efetivas. Ironia das ironias! Os distúrbios mentais desse ativista só reconhecem algum alívio com o eletrochoque. Quando sua psicose atinge um paroxismo insuportável, ele viaja para ter sessões de eletroconvulsoterapia, em SP. Naqueles tenebrosos dias, era um adversário ferrenho dos hospitais psiquiátricos. A Zé Lopes era seu prato predileto. Hoje, quando ele fica na pior, a Zé Lopes é seu porto seguro... Abram seus corações. Vcs que esculhabam os frenocômios.... Vcs, honrados petistas, que meteram as manoplas na Petrobras e pagam a merreca de trinta reais a diária psiquiátrica, leiam a reportagem da Veja. Gestores, que desconstroem como podem os hospitais psiquiátricos, não deixem de ver a matéria. Vou sintetizar. O velho cineasta Eduardo Coutinho foi esfaqueado pelo filho esquizofrênico, Daniel. Talvez ele nem achasse que o filho era um psicótico grave... O fato é que Daniel, o homicida, nunca usou neurolepticos. A esdrúxula teoria de que o neuroléptico faz mais mal que bem não se sustenta. Quem sabe, amigos, essa tragédia não teria ocorrido se o paciente tivesse sido medicado adequadamente... Não sinto prazer em denunciar o descalabro de cinquenta mil doentes mentais nas ruas, abandonados pela incompetência, pelo preconceito, pela arrogância e pela inveja dos senhores antimanicomialistas.