Opinião
Desafio do Mil�nio
A obviedade da frase não a desmerece nem a descontextualiza: o Brasil é um país de dimensões continentais, com as peculiaridades e as incongruências que caracterizam um continente. De um lado, fartura, do outro, penúria. Essa dicotomia fica evidente agora, em função da crise da água. Temos, por exemplo, o rio mais caudaloso do planeta, mas não o aproveitamos para matar nossa sede. Vão aqui algumas informações básicas: a vazão média do rio Amazonas é de 215 milhões de litros por segundo. Daria para fornecer um litro de água, em intervalos de 30 segundos, aproximadamente, para cada habitante da terra. O volume equivale a 20% das águas fluviais do mundo. É muito líquido precioso à nossa disposição sem que tenhamos projeto viável, até o momento, para aproveitá-lo. E o Brasil criou há alguns anos uma agência para cuidar da gestão dos nossos recursos hídricos. A Agência Nacional de Águas (ANA) tem como missão ?regulamentar o uso das águas, rios e lagos de domínio da União e implementar o Sistema Nacional de Gerenciamento de Recursos Hídricos, garantindo o seu uso sustentável?. Nobre missão, embalada por vários programas que podem ser traduzidos na ?oferta sustentável de água de forma perene?. Parece simples, mas não é. Esquecemos que a água potável é um bem finito, indispensável, vital, mas finito. Os mais pessimistas chegam a afirmar que se houver uma terceira guerra mundial (queira Deus que isso nunca aconteça) será por água. A ANA surgiu na esteira do seminário ?Água, o desafio do próximo milênio?, realizado pelo Palácio do Planalto em julho de 1999. No ano seguinte, o presidente da República, em exercício, Marco Maciel, sancionou a Lei que criou a agência. Percebam que a água, ou a falta dela, era considerada um desafio. Passados 15 anos, onde foi que o rio das boas intenções aquáticas saiu do curso? Difícil precisar, porém não é algo que não possa ser corrigido. Não podemos esperar que a natureza resolva nossos problemas, como acontece agora na sudeste do Brasil. Nós nordestinos sabemos bem o que é isso. O projeto de transposição do Rio São Francisco foi apresentado pela primeira vez há 168 anos, no reinado do imperador Pedro II. Desde então houve avanços e retrocessos sem que tenhamos noção exata da sua magnitude e do impacto ambiental que provocará. Sabemos que grande parte do País precisa de água, contudo, o Nordeste convive com esse drama há gerações. Se não for a ANA a nos orientar (talvez precisemos de mais um instrumento executor) que seja outro órgão ? é bom lembrar que já possuímos instituições como o DNOCS (Departamento Nacional de Obras Contra a Seca). Todavia, algo é certo: a água precisa deixar de ser o desafio do milênio.