Opinião
Ajuste sem arrocho
As favelas de todo o País têm mais de 12 milhões de habitantes. É uma parcela da população que movimenta mais de R$ 68 bilhões por ano e apesar dos problemas na economia, a renda dela continua aumentando e a taxa de inadimplência está estável. O emprego formal é o principal indicador da melhoria de condições de vida dos moradores de favelas nos últimos anos, conforme pesquisa do Data Favela. Os dados mostram que 53% dessas pessoas têm emprego com carteira assinada. Os números indicam que 18% trabalham como autônomos, 17% atuam na informalidade e 7% são empregadores. O Programa Bolsa Família tem papel importante na complementação de renda das famílias que vivem em favelas. Um em cada quatro lares tem pelo menos um morador que recebe o benefício. O índice chega a 58% em Fortaleza, 40% em Recife e 32% em Belém. A pesquisa mostra ainda que o aumento da renda média, proporcionado principalmente pelo crescimento real do salário mínimo e do emprego formal, tem permitido que as pessoas que vivem nessas comunidades participem do mercado de consumo. Este ano, entretanto, o cenário econômico global desfavorável apresenta um desafio para o país. O governo vem anunciando diversas medidas visando ao ajuste fiscal, as quais, na prática, recaem sob os trabalhadores que ganham menos. Como ressaltou o senador Fernando Collor, em discurso ontem no plenário, são os assalariados, aposentados e pensionistas de menor renda os mais atingidos pelas mudanças nas regras do Seguro-Desemprego, do Abono Salarial, do Auxílio-Doença, da Pensão por Morte e do Seguro-Defeso. Nesse período de desaceleração da economia, é importante que os governos garantam a proteção às populações mais vulneráveis e invistam em produtividade. A necessidade de recuperar a confiança e de retomar o crescimento econômico de fato requerem ajustes, mas isso pode ser feito seletivamente priorizando os gastos, protegendo os mais vulneráveis, já que os gastos sociais são muito importantes para os pobres, e investindo na produtividade. Ampliar as receitas e priorizar gastos naquilo que é mais importante, investindo em produtividade, são a chave para o ajuste fiscal proposto pelo governo brasileiro. É fundamental assegurar o crescimento, ao mesmo em que se olha a sustentabilidade e a qualidade desse crescimento.