Opinião
MAIOR QUE A HIST�RIA
Estômago de ferro ? contra pancadas ? sobreviveu aos ataques dos sapos, bichos do mato e cobras que, em alta e na baixa, entraram pela goela. Suportou todas as pressões e, de pé, fazendo que não entendia, chegou perto dos 80 com a mesma alegria, boca aberta de um lado ao outro. Pobre, Suruagy apareceu, cresceu, fez o dever de casa e agora retornou, de cabeça erguida, às origens. Sucesso na atividade pública, ajudou sem saber a quem, abraçou a todos, sem distinção e, na passagem por aqui, provou ser um instrumento diferenciado. Construiu um grupo gigante de ?neguinhos? e, como mortal, errou, acertou, ganhou, perdeu, subiu, desceu. Menos vereador, Suruagy ocupou todos os cargos ? secretário de Estado, prefeito de Maceió, deputado, governador três vezes, senador ? carregado nos braços do povo. Pensou que todos eram iguais e, no fim do ciclo, descobriu que, na estrada, o carro só anda com gasolina no motor. Sem combustível, não pega nem no empurrão, mesmo usando a ?chupeta?. No poder, que exerceu com simplicidade, perdeu a intimidade até em casa, reunido com a família, sob a delicadeza de dona Luzia, eterna primeira-dama. Despachando no Palácio, tinha que prender a barriga, antes de ir ao banheiro, diante do assédio dos ?amigos?. Pra onde se virava, onde estivesse, tinha alguém por perto, levando a pasta, dormindo na porta do prédio que morava. Numa conta rápida, pelo menos 80% da população, na época, foram contemplados através de sua assinatura, com empregos e outras bondades. Candidato a deputado estadual depois da fama, obteve uma votação indigna, longe do tamanho de sua biografia. Muita gente, nos tempos de glória, jurava na praça pública que o acompanharia até se fosse para o Partido Comunista. A bola murchou e todos eles ? desprovidos de gratidão ? sumiram, esqueceram o passado, quebraram o retrovisor e, como vampiros, secaram o defunto. Sem companhia, só, já doente, começou a definhar e, por onde passava, aqueles que usufruíram do coração grande dele, mudavam de calçada. Alguns - subindo de baixo pra cima na balança ? trataram o governador como ilustre desconhecido. A política não tem identidade, prostitui, machuca, mata, dá pisa e quem já experimentou da comida sabe que ninguém escapa do veneno. De fenômeno eleitoral ? comandando a massa ? passou a enfrentar os degraus da escadaria do shopping com dificuldade, segurando no encosto, sob o olhar traiçoeiro de bajuladores que escapuliram na descida. O voto é uma ilusão e o poder, como novela, tem prazo de validade. Muita gente ainda marca distância e imagina, no gabinete, ser parente de Deus. Ao contrário de Suruagy, a maioria também transmite, na morte, olhar de arrogância.