loading-icon
MIX 98.3
NO AR | MACEIÓ

Mix FM

98.3
quinta-feira, 06/08/2026 | Ano | Nº 6283
Maceió, AL
24° Tempo
Logo Gazeta de Alagoas Logo Gazeta de Alagoas
Home > Opinião

Opinião

A vez do morro

Ouvir
Compartilhar

HUMBERTO GOMES DE BARROS ?O morro não tem vez/O que ele fez já foi demais/Mas olhem bem vocês/Quando derem vez ao morro/Toda cidade vai cantar?. Esses versos integram belíssimo samba que andou em moda, nos anos sessenta. Seu inspirado compositor referia-se à musical generosidade que impregnava o povo montanhês do Rio de Janeiro. Catalogado entre as músicas de protesto, o samba traduzia, de fato, um ato de esperança. Nele se profetizava um tempo em que a burguesia e o proletariado (termos em voga, na época), superando antagonismos e ódios. A imprensa atribui tanta violência a uma só entidade: o comércio de drogas, encastelado nas favelas. Por força da mídia, a palavra ?traficante? passou a designar qualquer bandido armado: comerciante de drogas; seqüestrador; ladrão ou arruaceiro. Em busca de traficantes, a Polícia invade favelas, onde troca tiros, morre, mata, aterroriza, prende culpados e inocentes. A ação letal das balas perdidas tornou-se corriqueira. Já não produz manchetes. Perdeu espaço. Hoje, mal ultrapassa o limite do noticiário policial. Em resposta às invasões, o tráfico organiza patrulhas (?bondes?) que baixam à Cidade, matando, seqüestrando, espalhando terror. Esse processo dialético rege-se pelo ódio. Na raiz de tudo, o maniqueísmo. De um lado, o povo da cidade, assentado em leis impostas pelo Estado, considera-se a serviço do bem, na sublime tarefa de destruir os traficantes - agentes do mal. A invasão de domicílios, a prisão e morte de inocentes são encarados como acidentes inevitáveis no cumprimento do sagrado munus. Não há qualquer preocupação com o que sentem e de que necessitam os moradores das favelas. Ninguém lembra de lhes pedir sugestões para resolver o problema. As soluções vêm prontas e devem ser aceitas sem discussão. Elas resumem-se em alguns preceitos, como: ?É proibido dar abrigo a traficante? ou ?é dever de todos delatar o traficante?. O descumprimento é combinado com prisões, espancamentos e quejandos. Não existe, porém, qualquer incentivo para quem colabora na erradicação do narcotráfico. Os favelados, de seu lado, consideram-se vítimas da opressão. Para eles, a Polícia é a encarnação do demônio. Pior que os agentes do tráfico. Estes, pelo menos, lhes fornecem alguma assistência e ? em última análise ? empregos. A rejeição mútua vai, aos poucos, transformando a mais querida de nossas cidades em sucursal da Palestina. De um lado, a guerrilha urbana; de outro, a repressão e a retorsão violentas. Cabe, aqui, uma pergunta: Será a palestinização um processo irreversível? Sem ser economista e nada entendendo de sociologia. Atrevo-me a dizer que a tendência é para o pior. Não sou pessimista. Para mim tudo melhoraria, se houvesse diálogo e permuta. Nós, os ?burgueses?, fizemos um diagnóstico etiológico e proclamamos: a droga está na origem de todos os males. Esquecemos, desgraçadamente, de perguntar a nossos vizinhos o que eles pensam disso. Que tal fazê-lo? Uma rodada de consultas aos moradores da favela certamente revelaria uma causa anterior ao narcotráfico e tão perversa quanto ele: o desemprego e a exclusão social. De fato, nossa estrutura socioeconômica reserva para os favelados o mercado informal. Nossa proposta velada é: larguem o tráfico; abandonem as armas e venham ser mendigos, apanhadores de latas vazias, guardadores de automóveis; seus filhos, bem podem ser maloqueiros, vivendo na rua ou em alguma dependência da Funabem (ou Funamal?); dignidade é coisa de intelectual ? vocês bem podem viver sem ela. A semelhante proposta o Morro responde: o traficante é, também, meu inimigo; ele transforma meu filho em bandido; meu menino, armado, drogado e armado pelo tráfico, é condenado a ter vida curta. Ajude-me a livrar-me desse terrível flagelo! Se cobrássemos dos favelados, alguma sugestão, acredito que ouviríamos um apelo: ?Dê-nos empregos dignos; tratem-nos com respeito, ajudem-nos a resgatar do tráfico os nossos meninos. Façam isso, e seus filhos - como os nossos - estarão livres do vício?. O narcotráfico é filho da miséria. Se, em lugar de mandarmos policiais, enviássemos agentes de emprego, estaríamos levando ao Morro a oportunidade de banir o comércio diabólico. Dando empregos, estaremos dando vez ao Morro. E se dermos vez ao Morro ? quem sabe ? ?toda cidade cantará?. (*) É MINISTRO DO SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA

Relacionadas