Opinião
D�VIDAS: V�TIMAS E VIL�ES
De todos os países afetados pela crise econômica de 2008, nenhum sofreu mais que a Grécia. Para salvar o País, a união europeia e o FMI impuseram o tradicional arrocho, com suas consequências para a população, como desemprego de 25%. Conhecemos bem essa história. Como brasileiros, sofremos com a mão pesada do FMI no governo FHC e como alagoanos, pior ainda. Nosso Estado é moído por uma dívida impagável há décadas. E se sofre mais quem tem menos, a Grécia e o Brasil que me desculpem, mas Alagoas é imbatível. Nossa dívida é uma calamidade que ultrapassa os 7 bilhões de reais. Para ilustrar melhor o impacto desse rombo numa economia minúscula como a nossa, o melhor número é a relação receita líquida versus dívida consolidada. O índice em Alagoas ultrapassa 1,4. Isso significa que o pouquinho que sobra quando se paga o funcionalismos e as despesas obrigatórias é utilizado para pagar dívida. Não sobra nada para investir. Para se ter uma ideia de quão ruim estamos, o segundo pior índice do Nordeste, o do Piauí, é de 0,45. Esses números são de 2011 (mas duvido que tenham melhorado) e estão na seminal obra ?Economia Popular?, que tive o prazer de receber diretamente das mãos do autor, o professor e amigo Cícero Péricles. A taxa de juros paga pelos Estados que federalizaram a dívida é uma genuína extorsão, mas finalmente, depois de anos de luta, o Congresso, capitaneado por um senador do estado que mais sofre, se fortaleceu para desfazer essa injustiça. Um detalhe, porém, é importante ressaltar quando se fala de dívida. Não foi o FMI que quis emprestar dinheiro a Grécia ou ao Brasil, nem o governo federal que quis assumir a dívida de Alagoas. Todo empréstimo é sempre um pedido de quem deve. Alagoas decerto constitui um caso único, pois não se tem notícia de outra dívida no mundo que, após ter sido renegociada, o valor aumentasse, mas todo endividado carrega, inescapavelmente, a culpa original por seus pecados. É muito fácil taxar os credores de abutres, como na Argentina, mas como fica claro no caso do Brasil, a vítima (do FMI) também pode ser vilão (dos Estados). E pra deixar essa historia ainda mais interessante, o STF acaba de mandar todos os entes pagarem seus precatórios até 2020. Pois é, até Alagoas também é algoz. Os pobres coitados que esperam pelos precatórios são, nessa ciranda, os únicos que não tem culpa no cartório e ninguém nunca teve pena deles.