Opinião
AO MESTRE, COM SAUDADES
Há um ano partiu do nosso convívio o meu estimadíssimo amigo José Fernando Lima Souza, por todos conhecido como Fernando Tourinho, fulminado por um infarto em plena terça-feira de carnaval. Mais do que meu professor de processo penal ? disciplina que ele dominava como poucos ?, Tourinho foi para mim um verdadeiro mestre, daqueles que ensinam mais com o exemplo do que com o intelecto. As lições que ele me deu nas inúmeras conversas que travamos no gabinete da sua casa, abarrotado de livros em prateleiras que iam até o teto, foram determinantes para que eu construísse a minha modesta trajetória profissional, permitindo-me sobreviver nessa guerra às vezes fratricida que é o exercício da advocacia. Fernando Tourinho foi, visceralmente, advogado. Empolgava-se com as teses que sustentava, notadamente no Tribunal do Júri, onde triunfou numa época em que pontificavam ícones como Antônio Aleixo Paes de Albuquerque. Suas idéias lúcidas e envolventes e sua palavra límpida e sóbria encantavam platéias inteiras, solidificando a sua fama de tribuno brilhante em Alagoas e por todo o nordeste. Na sala de aula, a sua cultura sólida causava espanto e até um certo temor nos neófitos do estudo do direito, amedrontados que ficávamos com as citações de cor que ele fazia de Giovanni Leoni, Giuseppe Bettiol e Niceto Alcala-Zamora y Castilho, autores estrangeiros da sua predileção. Quando largou a beca para vestir a toga, eleito Desembargador como representante da classe dos advogados, Fernando Tourinho levou-me para ser seu assessor no Tribunal de Justiça, eu ainda estudante da Ufal. Ali vi de perto ele tornar-se o magistrado estudioso e disciplinado que marcou época no judiciário alagoano, leitor incansável dos doutrinadores modernos, julgador preocupado com a vida das pessoas envolvidas nas contendas judiciais que decidia. Chefe de família exemplar, dedicou à sua amada esposa Geyne e aos seus diletos filhos Fernando, Viviane, Maurício e Luciana um desvelo sem igual, e teve a ventura de presenciar a posse do seu primogênito na mais alta cúpula da justiça da nossa terra. Chamei-o sempre de mestre, e ainda sinto o aperto forte da sua mão em meu braço, encerrando a prosa com um sonoro ?com Deus, filho?. Guardo de Fernando Tourinho as melhores recordações; sou-lhe grato por ter-me ensinado a acreditar em mim mesmo, a confiar nos meus esforços, a perseverar nos meus sonhos. Ele jamais se ausentará das minhas lembranças e das minhas orações.