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Opinião

Poder de fogo

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RONALD MENDONÇA * É, no mínimo, inquietante a posição do ministro da Justiça, advogado Thomaz Bastos, sobre a questão da venda de armas no país. Apologista das penas doces e alternativas, Bastos está convencido de que bandidos ? ?crime organizado?, subentenda-se ? não adquirem seus instrumentos de trabalho em empórios regulamentados. A constatação de tão óbvia chega a ser ridícula. Imaginem se um dia alguém vai dar de cara com Fernandinho Beira-Mar ou Elias Maluco, encostado num balcão de uma loja de armas, jogando conversa fora enquanto aguarda que o vendedor passe o cartão de crédito e/ou embrulhe prosaica caixa de balas ? É a partir dessa hilariante obviedade que o ministro e assessoria concluem pela inutilidade do fechamento das lojas de armas como um dos meios para tentar reduzir a criminalidade. Esquece Sua Excelência que o ?crimeorganizado? não é o único, nem é o maior, responsável pelo boom da violência que viceja país a fora. Com isso não quero limpar a barra dessa gente. Como é possível ignorar uma organização criminosa com o poder de um Estado paralelo, que abriga os bandidos mais temíveis do país, que tem ligações mais do que provadas com o aparato policial, com membros do Legislativo e, desgraça das desgraças, com condestáveis da magistratura? Para completar esse quadro desolador, parte da sociedade, só da boca pra fora, é que é partidária de se jogar pesado com o narcotráfico. A razão disso seriam as benesses recebidas em forma de proteção, de prestígio na comunidade, alguma forma de vantagem, enfim. Sem falar nos consumidores... Se não se pode minimizar o papel do narcotráfico, muito menos se pode fechar os olhos para os crimes praticados por uma récua de assaltantes de rua, de arrombadores, assassinos de primeira muda, ladrões de cargas e de carros, seqüestradores, ?justiceiros?, pistoleiros de aluguel, cônjuges inconformados e até os misteriosos ?sindicatos do crime? com suas supostas ramificações nas classes política e empresarial. Os leitores que, por curiosidade ou autoflagelo, se dão ao trabalho de folhear as páginas policiais dos periódicos sabem exatamente do que estou falando. É monótono afirmar que são as lojas especializadas - e não contrabandistas - que municiam os ?bandidos comuns?, quer de forma direta, ilegal e amoral, quer via cidadão comum que, ingenuamente, investe num revólver pensando em proteger-se e, num assalto, termina sendo vítima da própria arma. O pior de tudo é enfrentar a poderosa indústria de armas do país (que o diga o senador Renan Calheiros, ex-ministro da Justiça), que não admite ouvir falar em restrição na venda de seus produtos. De qualquer forma, parece inadiável a discussão sobre a importância e os riscos de estabelecimentos que atuam nesse ramo. Enquanto isso não chega, tenta-se crer que o Ministério Público está atento, cumprindo o seu papel, denunciando os que, comprovadamente, forneceram armas e balas a criminosos. (*) É MÉDICO E PROFESSOR DA UFAL

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