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Opinião

Sociedade perigosa

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MARCOS DAVI MELO * Em um cenário internacional fervilhante, recebemos esta semana a visita do presidente da Argentina, Eduardo Duhalde, do que restou um comunicado conjunto com Lula, onde se reiteram as aspirações para o ressurgimento do Mercosul e uma heróica resistência ao Nafta. Pura retórica antinorte-americana ou existem justificativas para as preocupações? Recente matéria de Ginger Thompson, publicada no jornal The New York Times, revela a situação da economia mexicana após 10 anos de vigência do acordo para abolir as barreiras comerciais (leia-se Nafta) entre os EUA, o Canadá e o México. O olhar desapaixonado revela avanços na economia mexicana, que passou a ser a nona maior do mundo. Principalmente às custas das exportações de produtos manufaturados, feitas por grandes conglomerados e transacionais do ramo de processamento de alimentos. Unidades de produção chamadas ? maquiladoras?, responsáveis pela criação de centenas de milhares de empregos. As exportações para os Estados Unidos cresceram de US$ 2,7 bilhões para US$ 5,3 bilhões. Por outro lado, o clima reinante no setor agrícola mexicano, onde se concentram 25 milhões de pessoas (um quarto da população) é de desespero. Os criadores de porco, carne largamente consumida no país, viram a sua atividade despencar. Um porco criado em Iowa nos EUA pode ser vendido na província mexicana de Irapuato por um quinto do preço do produzido ali. Assim, um terço dos produtores mexicanos de carne de porco abandonaram a atividade e os EUA já dominam 40% do mercado mexicano. Revoltados, centenas de agricultores e manifestantes mexicanos bloquearam estradas e postos de fronteira e invadiram, montados a cavalo, o Congresso do país. As importações de alimentos dos EUA neste período dobraram de US$ 3,6 bilhões para US$ 7,4 bilhões anuais. Os avicultores também entraram em pânico, com a suspensão total de taxas ao produto norte-americano, ocorrida desde o dia primeiro de janeiro de 2003. O analista mexicano Eugenio Guerrero já previa este desenlace há anos, quando afirmou: ?Entramos nesta disputa em extrema desvantagem?; ?O México não será um país de produtores, mas de vendedores?. Recentemente, ratificou: ?Estamos nos tornando um país que depende dos estrangeiros para ter comida?. Acrescentou: ?Nesta associação somos os perdedores, é claro?. A previsão de 700 mil desempregados no campo nos próximos meses é apenas mais uma conseqüência inevitável do processo, onde as perdas superam em muito os ganhos. A previsão é de aumentar a emigração de miseráveis para a periferias das grandes cidades e de ilegais para os EUA. O governo mexicano, de caixa vazio, diz ser necessário se adaptar à nova realidade mundial. Não existe nada de novo neste relacionamento entre entidades desiguais formando uma sociedade. Fedro, na antigüidade, já alertava: Nunquam est fidelis cum potente societas (Nunca é segura a sociedade com os poderosos). Muito há de se pensar e fazer, para se estabelecer o lugar conveniente e possível para o Brasil nesta rinha internacional de interesses comerciais os mais selvagens. (*) É MÉDICO

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