Opinião
FUTEBOL: A VIT�RIA DAS GANGUES
Meus primeiros passos em comunicação começaram pelo rádio esportivo onde militei por quase duas décadas. Trabalhei em todos os grandes estádios do país, alguns, hoje, transformados nas chamadas arenas, reconstruídos para receber a Copa do Mundo. Vi de tudo, torcidas e culturas diferentes, da Amazônia ao Rio Grande do Sul. De pequenos poeirões do interior do Nordeste aos melhorzinhos do triângulo mineiro, Campinas e Ribeirão Preto, em São Paulo, onde transmiti o Botafogo local jogar projetando o Dr. Sócrates para o estrelato. Vi craques extraordinários, desfrutei do conforto das cabines climatizadas do recém-inaugurado Serra Dourada, em Goiânia, à época, considerado o mais moderno do Brasil. Em outubro de 1970, tive o privilégio de fazer a abertura da primeira transmissão esportiva, inaugurando o Estádio Rei Pelé pelo microfone Eletro Voz da Rádio Difusora. Da marquise do Maracanã lotado com cem mil pagantes, em 1972 (sem mais espaço para imprensa), narrei o gol de Jairzinho contra o Portugal de Eusébio, quando a seleção foi Campeã da Taça Independência, sob o olhar carrancudo do então Presidente Garrastazu Médici. O futebol me proporcionou fortes emoções como ver o Trapichão receber 35 mil pessoas para assistirem CSA X CRB decidirem o primeiro turno do Campeonato Estadual de 1974. 1 X 0 azulão com gol de Ênio e arbitragem de Arnaldo Cesar Coelho. Um espetáculo memorável! Seduzido pela publicidade, parei com o rádio antes de fazer um Mundial. Mas há coisas que nunca vi nos estádios e jogos que transmiti: gangues organizadas, bandidos patrocinados pelos clubes aterrorizando famílias, tirando-lhes o direito sagrado de sentirem alegria e tristeza na vitória ou na derrota do time do coração. Nunca vi agitar-se ao vento surgindo do meio das torcidas financiadas pelos dirigentes, fumaça de maconha sufocando a multidão. Confrontos de guerra, pancadaria de morte, balas assassinas disparadas pelas galeras atingindo inocentes e mutilando crianças. Cadeiras quebradas, destruídas e usadas para agressão contra o ?inimigo?. Nas ruas, ônibus depredados, agressores ensandecidos munidos de pau, pedra, barra de ferro e armas letais. Cenas de terror! O povo apavorado. A bandidagem, impune, está vencendo o campeonato da violência. Vamos continuar reféns, confinados? Até quando ou é para sempre, autoridades?