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Opinião

O VELHO FEITO MENINO

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O velho reviu a primeira namorada e, revendo-a, foi como se revisse a si mesmo, na época da adolescência de ambos. Por um instante voltou no tempo, esquecendo-se da miopia, da calvície e das dores nas costas. Viu-se de novo menino, frágil e puro, esgueirando-se por entre pitangueiras e jasmineiros do grande quintal da tia da amada, agarrado à mão da jovem e extasiado com o pôr do sol que pulava do canavial e tingia de amarelo as águas do rio à sua frente. Lembrou-se da descoberta da poesia que ambos fizeram juntos, perplexos de enxergarem quantos sentidos cabiam nas palavras. Reviu capas de livros, versos fincados para sempre na sua alma. Sorriu baixinho, feliz de ter tanta coisa boa para recordar. Fechou os olhos e estava mais uma vez na praça da matriz, noite iluminada de festa da padroeira, furtando a rosa mais bonita da charola da santa (grave transgressão!) para ofertar à namorada. E derreteu-se novamente com o sorriso luminoso da menina encantada com o encantamento que nele fazia surgir. Vieram-lhe à boca sabores de algodão doce, de maçãs do amor e de sorvetes em espiral, pipocaram foguetes, chuvinhas e rojões diante das suas pupilas. Tivesse ali uma bicicleta, o velho pedalaria rua afora, correndo ladeira abaixo sem medo nem precaução. Houvesse uma ximbra ou um pião, sentar-se-ia no chão sem pressa, deixando o tempo escorrer lentamente, sem aperreio algum. Observando a namoradinha de outrora, o velho pensou na vida que poderia ter sido e que não foi, nos projetos irrealizados que se perderam no meio do caminho. Teriam dado certo? Nunca se saberá, e essa incógnita não o angustia nem o atormenta; é apenas uma constatação. Olhando de longe a primeira namorada ? sem que ela sequer notasse a sua tímida presença ? o velho fez-se novamente sonhador, urdindo esperanças e empolgações. Notou que o coração ainda lhe batia no peito, e que as suas pernas ainda podiam tremer de emoção e de ansiedade. Viu que estava vivo, que sobrevivera às perdas e aos desencantos, que podia sonhar como antes, quando o futuro lhe parecia algo muito distante e a morte não era mais do que uma palavra sem significado algum. O hoje não lhe pesou tanto, não lhe pareceu tão penoso como costumava ser. Sentiu-se em paz ? e esse foi o maior presente trazido pela simples visão da garota de antigamente, que ela jamais pensara em lhe oferecer. Como no verso de Jorge Cooper, o velho ?fez seu encontro de contas, foi de si mesmo saldado?. E descansou.

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