Opinião
POR UM NOBEL PARA UM BRASILEIRO
No início do filme O Sal da Terra, de Juliano Salgado e Wim Wenders, com as assustadoras imagens da Calcutá de Serra Pelada, Sebastião Salgado nos revela sua percepção, durante a captura das imagens, de estar diante de uma realização tão monumental quanto a construção de uma grande pirâmide, ou a Torre de Babel. Este sentimento perpassa a mente do fotógrafo com um furor capaz de modificar completamente a sua visão do mundo. Reveladas as fotos, Salgado se convence de que a fotografia o escolheu para revelar imagens como estas ao mundo. A sequência de imagens segue levando o espectador a fazer parte do que está sendo apresentado, introduzindo-o, envolvendo-o, sem que este possa se dar conta, na necessidade de compreender a humanidade como uma tribo, um coletivo indissociável, interligado entre si, não só pelo DNA, este vínculo genético, mas por um sentido muito mais profundo de fraternidade, de solidariedade. É assim que Sebastião Salgado avista os seres humanos. Principalmente os pobres, os degredados, os refugiados da Terra. Ainda que não possa existir dignidade na miséria e no sofrimento, as imagens de Salgado, por serem tomadas com respeito e envolvimento, expõem com uma força avassaladora a alma dos retratados. A maneira deste fotógrafo registrar pessoas, sua generosidade, sua delicadeza em avistar o outro, seu olhar sempre carregado de compaixão revelam a nobre dignidade existente até mesmo no mais miserável tuaregue do Sahel. A escolha de Salgado como narrador do documentário acaba, de forma muito oportuna, por posicionar a humanidade como a protagonista. E, assim, por dizer que o filme não é sobre Sebastião Salgado. O filme narra a história dos despossuídos, dos esquecidos do planeta. A sequência que narra um trabalho cuja conclusão tomou oito anos do fotógrafo é um registro da beleza dos locais mais intocados do planeta, capturados em todo seu esplendor. É apresentada no Gênesis, numa mirada tão surpreendente quanto àquela dedicada aos grupos humanos. Salgado explica como conseguiu, por um insight de sua companheira Lélia, regenerar 600 hectares de floresta tropical de uma região totalmente desmatada, seca, transformada em pasto, na fazenda de sua família, em Minas Gerais. Mais que uma ode ao Planeta o filme é uma carta de amor aos que vivem sobre este chão. O ser humano Sebastião Salgado está à frente do fotógrafo, do artista. É maior. É um humanista, uma criatura compromissada, alguém que está a serviço dos perseguidos, dos ?sem nada? deste Mundo. Salgado não é apenas mais um fotógrafo. É a luz. É o sol da Terra.