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Opinião

Jos� Medeiros e o m�dico doente

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Certo dia, um médico juntou os seus residentes e mostrou-lhes uma radiografia, perguntando-lhes o diagnóstico. Nenhum deles teve dificuldades em fazê-lo :era um câncer muito avançado. Depois que todos formularam prognósticos muito sombrios,alguém se lembrou ? por fim ? de perguntar quem era o paciente de quem a radiografia tinha sido obtida. ? Eu ? foi a resposta seca do médico. E foi embora, deixando os jovens com aquilo que deve ter sido o maior sentimento de culpa de suas vidas.Esse caso consta da obra A Face Oculta de Moacyr Scliar, uma compilação de textos que revelam os bastidores da prática da Medicina,universo repleto de mitos,descobertas, medos e conquistas, inclusive sobre essa condição imperscrutável do próprio médico ser o paciente. Médico cuidar de médico?Eles próprios se automedicam e só procuram os colegas quando estão mal.Isso é tão frequente que justificou um artigo do New England Journal of Medicine:quando o médico enfim aceita que está doente, diz o autor, Peter M. Marzuk, da Cornell University, sente-se embaraçado, culpado,como se de alguma maneira tivesse fracassado na sua sagrada missão,deveria ignorar a própria dor, o próprio sofrimento. Um estudo feito no Hospital Pedro Ernesto, no Rio,mostrou que 52% dos seus médicos tinham problemas cardiovasculares e a maioria recorria a automedicação.É com se quisessem viver sempre na premissa de Nietzsche ? Tudo aquilo que não me mata me faz crescer?. Montaigne achava que os bons médicos são aqueles que tiveram as doenças que se propõem a tratar. Isso foi comum nos tempos quando a tuberculose era endêmica e a maioria dos tisiólogos foi acometida pela enfermidade, o que lhes proporcionava uma acentuada humanização no trato de seu pacientes. José Medeiros, médico e humanista,era cordial, agregador e transparente; sofreu com sobriedade e dignidade exemplares, longa e insidiosa enfermidade. Homem de profícua vida pública dedicada à Alagoas,era cultuado articulista da Gazeta de Alagoas, e foi na Academia Alagoana de Letras, no Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas, e principalmente na sua amada Sobrames que Medeiros, pode compartilhar sua paixão pela literatura, arte transcendental, que ao perscrutar a alma humana,coteja visceralmente seus anseios e suas angústias.Bons e concretos exemplos, como o de José Medeiros, tornar-se-ão perenes modelos para todos nós. Descanse em paz.

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