Opinião
O grito da terra
De acordo com levantamento feito pela Comissão Pastoral da Terra, o número de mortes em conflitos agrários cresceu 15% em 2017 na comparação com o ano anterior, num total de 70 assassinatos. Trata-se do maior número desde 2013. Dentre as mortes registradas, a pastoral destaca massacres que ocorreram na Bahia, Mato Grosso, Pará e Rondônia que resultaram em 28 assassinatos. O estado do Pará lidera o ranking de 2017 com 21 pessoas assassinadas, dez no Massacre de Pau d?Arco, seguido pelo estado de Rondônia, com 17, e pela Bahia, com 10 assassinatos. Ainda de acordo com a CPT, desde 1985 o Brasil contabiliza 1.438 conflitos no campo, que deixaram um total de 1.904 vítimas. Desses casos, 46 foram registrados como massacres, com 220 vítimas ao longo dos últimos 32 anos. A maior parte das mortes envolve trabalhadores rurais sem-terra, posseiros, fazendeiros e/ou madeireiras, mas ocorrem, também, assassinatos em áreas indígenas e quilombolas. O modo como ocorreu a posse ou a concessão de terras no Brasil foi responsável pelos conflitos no campo. Esse processo gerou uma grande concentração de terras, fenômeno que muitas vezes se deu por meio de grilagem e da precarização do trabalho rural. Também foi um dos fatores para o problema do êxodo rural. O País ainda convive com milhões de trabalhadores rurais sem terra, enquanto muitas áreas permanecem sem aproveitamento. Essa realidade fez surgir movimentos que lutam pela mudança na estrutura fundiária brasileira e utilizam as ocupações como forma de pressionar o poder público. É uma prática que gera controvérsias e reações contra e a favor. Como já foi tratado neste espaço anteriormente, a solução do conflito agrário brasileiro passa necessariamente por uma política agrária que favoreça a fixação do homem no campo. Não se trata apenas de distribuir terras, mas garantir apoio técnico e financeiro aos novos pequenos proprietários. A reforma agrária deve ser tratada não como uma questão ideológica, mas como uma necessidade do próprio sistema capitalista para o equilíbrio social e o desenvolvimento econômico. Entretanto, no Brasil tem sido um processo e que enfrenta várias barreiras, entre elas podemos destacar a resistência dos grandes proprietários rurais, dificuldades jurídicas, além do elevado custo de manutenção das famílias assentadas. São desafios que precisam ser vencidos.