Opinião
NUM S�BADO DE Z� PEREIRA
Quanto mais corre o tempo, mais nos vamos dando conta do quanto são efêmeras as coisas dessa vida. A nossa própria existência, presente generoso ofertado por Deus, é como aquela quadrinha do poeta J. G. de Araújo Jorge: ?Gota d?água transparente,/ que brilha, cresce, e que cai;/ assim a vida da gente,/ que num instante se vai?. Um fio tênue une o berço onde já dormimos ao túmulo onde iremos repousar um dia, nessa trajetória às vezes sem sentido para os olhos humanos. ?Tudo passa, tudo sempre passará?, cantou Lulu Santos; e eu, já sendo hoje um quarentão, sinto cada vez mais forte ?o trevoso sabor da finitude?, valendo-me do belo verso do poeta Sidney Wanderley. Meses atrás, em pleno sábado de Zé Pereira, levei algumas horas da manhã em companhia da Milena, amada sobrinha e afilhada, passeando sem pressa pelas alamedas do cemitério de Murici, buscando os locais de repouso dos nossos antepassados em meio a flores, matagal e silêncio. Do meu bisavô José Vicente Ferreira, falecido aos 101 anos em 1954, ao meu amigo de infância Caca Vasconcelos, morto em plena juventude no final de 2014, muitas foram as lápides que me fizeram parar no meio do caminho e rezar uma prece, as memórias vindo aos montes como um tsunami de afetos e de saudades. Nomes grafados no mármore nobre ou em toscas cruzes de madeira pintada, rostos congelados em retratos ovais, perpetuando fisionomias e modos de ser. O velho cruzeiro abrigando as velas acesas na intenção daqueles de quem não se conhece a cova, mas a quem não se deve negar uma oração caridosa, como me ensinou a minha avó Izarele. Inundado de respeito e de ternura, caminhei vagarosamente pelo campo santo da minha terra-mãe, eu que vivo sempre tão apressado e cheio de obrigações a cumprir. Liberto da agenda e do relógio, relembrei pessoas, lugares e acontecimentos que nunca saíram das minhas recordações. Eulália, Durval, Hosana, Jairo, Docília, Horácio, Adélia, Bráulio ? quantas saudades! Ouvindo um bem-te-vi que cantava ao longe, pude escutar a mim mesmo, na sinfonia orquestrada pelos meus melhores sentimentos. Saí de lá mais sereno, novamente grato a tantos que me trouxeram tantas lembranças boas ? como duvidar, então, de que eles permanecem vivos, e de que ressuscitam a cada momento em que surgem no meu coração? São mais que homens vãos, feitos de barro; são espíritos de Deus, que Deus anima. Estão comigo, para todo o sempre.