Opinião
Esses encantados vivos mortos
Mergulho, diariamente num amontoado de papéis, rabiscados com ou sem sentido. Como sou adepta a fazer comparações, fico imaginando, a semelhança dos mesmos com rios mansos, ou no encontro com obstáculos tenebrosos e inesperados, sendo o seu percurso interrompido frequentemente. Enfim, o que é a vida senão um manancial fluente, onde as águas se renovam ou permanecem estagnadas, impedindo a formação de cursos deslumbrantes, cachoeiras altíssimas ou simplesmente, o desfile de correntes singelas que decidem doar-se a poderes soberbos como os oceanos? A natureza é repetitiva. Contrastes e semelhanças se alinham, nos surpreende e empolga. Há uma constante confraternização entre os humanos, quer no lado do bem, ou quando se aglomeram acatando o mal que jamais será o vencedor, empreendendo sempre uma luta renhida contra ele próprio, transformando-o sempre num impulsivo perdedor. Os contrastes ultrapassam as semelhanças: a escuridão da noite oferece oportunidade ao dia colorido, à tristeza, as perdas, a dor, tudo aquilo capaz de destruir-nos, poderá ser um dia substituído por sentimentos opostos. Nada possui o dom da eternidade! As pessoas são diferentes. O mundo é diferente. Há aqueles que vivem, sobrevivem e ainda ensinam outros a fazê-lo. Há ainda aqueles que parecem definhar antes de acalentarem a vida. Há os que vivem estendendo as mãos aos pequeninos e aqueles que as escondem por sentimentos negativos ou de humildade. Há os que vivem destruindo, difamando, infiltrados na ambição, inveja e dialogando com a maldade em todos os aspectos. Propagam o mal e ainda se envaidecem por fazê-lo. Alguns, apegados à religião, tementes às diretrizes divinas, tentam amenizar as difamações, o ódio, o desamor, arcando a incumbência pacífica de serem vivos. Os vivos mortos desfilam pelas ruas e avenidas encobertos por mantas de ovelhas. Poderão arquitetar obras magníficas ou não, sendo gigantes ou incógnitos seres. Enquanto outros heróis indomáveis, seguem em frente encobertos pelo manto da simplicidade, não se deixam abater e se inspiram num provérbio turco que prega: ?O ser humano é mais duro do que o ferro, mais forte do que a pedra e mais frágil do que uma rosa?. E aparecem como espelhos nem sempre mirados e revelados.