Opinião
QUARENTA E CINCO
No último dia três, completei quarenta e cinco anos de vida. Mais rápido do que jamais pensei caminho célere rumo à meia idade, e na busca por encontrar uma palavra que sintetizasse essa quadra da minha existência, gratidão foi a que logo chegou à minha mente. Gratidão pelo que Deus me permitiu vivenciar até aqui, pelas pessoas que Ele fez cruzarem o meu caminho, pelas oportunidades sem conta em que eu pude escutar, nitidamente, a voz dos céus soprando em meus ouvidos conselhos e orientações que tornaram mais fácil o meu caminhar. Parece-me que ainda ontem eu era menino calado e tímido, e quase que de repente já me vejo adulto maduro e audaz, passando pelas intempéries e vencendo as procelas. Tendo nascido prematuro, sobrevivi até agora; já é grande vantagem. Se encontrei, nos meus momentos de calvário, Judas que traíram e Pilatos que lavaram as mãos, também deparei-me com Cirineus que me ajudaram a carregar o madeiro. Sou gratíssimo a esses últimos, e todos os dias ponho os seus nomes nas minhas orações. Devo muito a muitas pessoas, orgulho-me em dizê-lo, pois cedo aprendi que mãos estendidas para nos ajudar são um tesouro precioso e raro. Há quem tenha me feito o bem sem nem perceber, dada a generosidade da sua alma. Mas eu sei o quanto foram importantes, e de minha parte, eu nunca os esqueço. Ouvi lições de pessoas humildes, sem nenhuma instrução formal, que eram verdadeiros sábios, filosofia brotada da experiência vivida. Aprendi a conversar com velhos e crianças, colhendo pérolas de paciência e de curiosidade. Colhi muitos abraços e sorrisos, mergulhei em muitos rios e mares, vi flores desabrochando em manhãs orvalhadas ao som de canários-da-terra. Muitas vezes parei a bicicleta para ver o sol se pondo por trás dos canaviais do rio Mundaú, o horizonte avermelhado pela despedida do astro-rei. Foi ali que eu aprendi o quanto é preciso silenciar para ouvir a si mesmo. Vivemos um tempo de muito ruído e grande agitação, faltam-nos coragem e disposição para a escuta interior. Perdi avós e mãe, ganhei mulher, filho, sobrinhos e afilhados. Plantei árvores, escrevi livros, criei cães. Passadas quatro décadas e meia, posso dizer que me agrada o que vejo diariamente no espelho: não o super-herói que um dia eu imaginei que pudesse ser, mas um homem que luta, sofre, ama e sonha. As marcas na face, a calvície acentuada e a vista cansada são minhas conquistas; somente eu sei o quanto me custaram. E como cantou Roberto Carlos, ?se chorei ou se sorri, o importante é que emoções eu vivi?.