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Opinião

Ajuste amargo

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Na sexta-feira, depois de muita expectativa, o governo anunciou um plano de austeridade que prevê o contingenciamento, ou seja, o bloqueio de R$ 69,9 bilhões do Orçamento, incluindo a redução de verbas para todos os 39 ministérios. Um dos maiores cortes atingiu o Programa de Aceleração de Crescimento, criado ainda no governo Lula, para incentivar as obras de infraestrutura. Por tabela, também sacrifica o Minha Casa Minha Vida, programa que tem garantido a muitas famílias o acesso à casa própria. Apesar do número impactante, para alguns especialistas o tamanho da ?tesourada? ficou aquém da verdadeira necessidade. Além disso, a qualidade do ajuste também foi considerada ruim, pois afeta principalmente os investimentos. Isso reflete a falta de alternativa do governo, que possui um orçamento engessado. Fica impedido, por exemplo, de modificar as chamadas despesas obrigatórias. Uma das poucas vozes a elogiar o pacote foi a da presidenta do Fundo Monetário Internacional, Christine Lagarde. Para ela, a austeridade macroeconômica está claramente na direção correta. Em se tratando do FMI, entretanto, nem sempre elogios são bem-vindos. Há, ainda, a agravante de que o governo tem uma complicada relação com o Congresso, e as medidas do ajuste fiscal estão saindo de lá muito menores do que entraram. Por isso, só uma articulação política mais ampla poderia, de fato, ajudar a alcançar a meta fiscal prometida pelo ministro Joaquim Levy. É de se reconhecer, porém, o esforço do governo de trabalhar com números realistas nos parâmetros utilizados para a elaboração do Orçamento, diferentemente de outras épocas, quando a equipe econômica preferia apresentar número excessivamente otimistas, que seriam desmentido mais tarde pelos próprios índices oficiais. O fato é que há uma grande desconfiança, tanto do mercado quanto da população em geral, sobre os efeitos em médio e longo prazos da política econômica adotada pela presidente Dilma em seu segundo mandato. O aumento do desemprego, a inflação renitente e a baixa confiança do consumidor reforçam a ideia de que o Brasil caminha para um cenário de recessão e aumenta as dúvidas sobre eficácia do ajuste. A única certeza é de que 2015 é mesmo o ano do aperto. A esperança é de que, em 2016, as densas nuvens que pairam sobre o País comecem a se dissipar.

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